Entrevista com protetora: resgate de uma cadela vítima de abusos, a impunidade do crime de maus-tratos a animais e o que a causa

A Crimes Reais teve a oportunidade de entrevistar Sophia Colmenero, protetora da Organização Não Governamental (ONG) Associação dos Protetores de Animais Independentes de Toledo (PR). Ela acompanhou o resgate de uma cadela e seu filhote, ambos vítimas de abusos por um morador de Ouro Verde (PR). Na entrevista, ela informou os detalhes do caso e chamou atenção para a importância de noticiar os crimes contra os animais que, embora recorrentes, são frequentemente ignorados pela mídia e população e, consequentemente, menosprezados pelos legisladores e pelo Judiciário.

Segue o bate-papo na íntegra:

01. Quando e como vocês descobriram que a cadelinha estava sofrendo maus-tratos?

R: Em outubro de 2020, foi realizada uma denúncia anônima para vigilância sanitária de Ouro Verde. Foi repassado para uma veterinária da vigilância sanitária, Liane Brinker, via Whatsapp, [mediante] uma colega de trabalho.

02. Inicialmente, a denúncia já envolvia abuso sexual?

R: Sim, a denúncia era da pessoa que viu o criminoso realizando o ato.

03. Como ela se apresentava emocionalmente (arisca ou com medo), durante o resgate? Qual era o estado físico dela?

R: Apresentava-se com medo. Estava trancada em um canil muito sujo. Inicialmente, a reação dela foi latir e, em seguida, quando nos aproximamos mais e fizemos alguns afagos, a reação foi de submissão e medo.

Tentava proteger também seu filhote, que estava tão desnutrido quanto ela e com dificuldades para andar.

04. Quem bancou financeiramente a recuperação do animal? Onde ela ficou durante o tratamento?

R: Os gastos foram bancados, na maior parte, pela veterinária que a adotou e outra parte pelo Hospital Veterinário Aukmia.

Durante o tratamento, ela ficou com a veterinária Liane. Como não havia ninguém que pudesse acolhê-la naquele momento, acabou adotando-a, pois se tratava de um animal bastante doente e idoso. “Ficará definitivamente comigo. Moro em uma chácara na companhia de mais três cachorras. Após a total recuperação, será castrada”.

05. Como ela está hoje? Ela superou os traumas físicos e psicológicos? Ela foi adotada ou permanece na ONG?

R: Atualmente está muito bem emocionalmente. Corre, late e demonstra muito carinho e afeto. Não aparenta ter medo, mas é submissa a mim. Já se adaptou totalmente ao novo lar. Agora chama-se Juliette!

Fisiologicamente, está ainda em tratamento recebendo quimioterapia, pois além das lesões e desnutrição, ela contraiu TVT (tumor venéreo transmissível). Está sendo submetida a exames de sangue para monitoramento.

Em relação à alimentação, está recebendo alimentos mais ricos em proteínas, como ração para filhotes, fígado e carnes. Também complemento com patês.

Seu filhote está bem, em um lar temporário e pronto para adoção. Ele teve lesões na coluna e cerebrais pelas pancadas que levou do abusador. Não sabemos as extensões das sequelas; só o tempo dirá. Ele é carinhoso e saudável, e por mais que tenha pouco equilíbrio, tenta sempre brincar e se divertir.

06. Quais providências judiciais foram tomadas em relação ao abusador?

R: Fiz um Auto de Inspeção/Fiscalização e encaminhei à delegacia de Polícia Civil de Toledo. Não tenho conhecimento do andamento do processo.

Em relação ao abusador, citei no Auto a Lei 14.064, de 22 setembro de 2020 (Lei Sansão, que aumenta as penas previstas ao crime de maus-tratos aos animais quando se tratar de cão ou gato), art. 32, parágrafo 1°-A, e também citei que ele está proibido de ter outro animal.

No momento da prisão, mesmo que a cadela tivesse sinais de abusos sexuais e físicos, por sua condição de não possuir as duas pernas, ele não foi preso. Em razão da pandemia, não teriam instalações adequadas para ele.

07. A Lei Sansão contribuiu de alguma forma para condenação do abusador? Na sua cidade, há alguma lei municipal de proteção animal?

R: A Lei Sansão nos deu mais força de atuação; porém, não sabemos ainda se houve alguma condenação por parte da Justiça.

No município de Ouro Verde, não há lei municipal de proteção animal. Em Toledo, existe o Código de Proteção Animal, mas não é seguido ou respeitado.

08. Qual a sua opinião sobre como, atualmente, os criminosos que praticam zoofilia são punidos?

R: A minha opinião em relação aos crimes de zoofilia é de que o criminoso deva pagar conforme os rigores da Lei; porém, percebe-se ainda que pouco se tem feito por meio da Justiça pelos animais submetidos a este crime absurdo. A legislação está mais favorável para a punição destes criminosos, mas ainda não está sendo aplicada integralmente.

Com a Lei Sansão, as coisas melhoraram, mas ainda é muito difícil. A sociedade acredita que esse crime não acontece mais ou que, se acontece, é em fazendas afastadas. Só esse ano, atendemos 5 casos do tipo, todos urbanos. O abuso sexual, físico e moral contra animais está ligado com abusos de seres humanos. Parando essas pessoas evita-se estupros de seres humanos, pois ninguém que consegue molestar um animal vai parar por aí.

09. O caso foi amplamente divulgado na região e nas redes sociais? As pessoas mostraram alguma indignação?

R: Houve divulgação pelo Facebook. A veterinária que fez o resgate postou:

Além disso, não aconteceu nenhum outro tipo de postagens ou matérias em nenhum veículo. Acredito que seja, em parte, pela tentativa de abafar um crime tão horrendo, tentando não mostrar que tal coisa acontece na região.

10. A ONG conta com alguma ajuda pública ou política para os resgates? Surgindo novos casos, a cidade tem como acolher?

R: Não. Por mais que esteja no Código Animal de nossa cidade que protetoras deveriam receber auxílio, que animais de rua deveriam receber o apoio público, não é essa a realidade. A cidade não tem canis; têm lares de protetoras que acolhem até o máximo de animais para tentar manter eles seguros, e por isso a importância da ONG, que é a nossa união.

O que recebemos como protetoras é o apoio de parte da população, mas estamos lutando para mudar isso e esperamos que com novos governos as coisas melhorem.

Pela Secretaria de Meio Ambiente de Toledo, conseguimos poucas vezes verbas para cobrir os custos dos resgates e, quando é liberada a verba, na maioria das vezes não é do valor completo, ou seja, sempre sai do bolso da protetora.

Além disso, também não recebemos apoio moral, ou seja, políticos não se impõem contra maus-tratos e o que define um lar abusivo para o animal. Assim, quando vamos resgatar um cão ou gato de uma casa depois de dias de denúncia para ouvidoria e nada, estamos à mercê de agressões e outros perigos.

11. Como é o trabalho da ONG em relação à adoção de animais? Realiza feiras ou eventos? Há acompanhamento pós-adoção? O adotante tem de assinar algum termo de responsabilidade?

R: Fazemos postagens em nossa página do Instagram e muito adoções são feitas por lá. Também realizamos feiras de adoções semanalmente e alguns eventos (devido à pandemia, não conseguimos realizar muitos).

Sim, tem um acompanhamento pré e pós adoção no qual podemos avaliar se o lar é adequado para animais: realizamos um questionário com a pessoa interessada e pedimos fotos do local que ela mora. Depois de adotar o animal, fazemos visitas, pedimos fotos, principalmente daqueles que foram retirados de maus-tratos.  Esse processo é vital, pois descarta pessoas que só querem abusar do animal e evita que, após a adoção, eles fiquem sem acompanhamento.

12. Quais são as suas expectativas com a publicação desse caso na página Crimes Reais?

R: Acompanho pessoalmente o trabalho da página e admiro muito a visibilidade que vocês trazem para crimes “pequenos” ou pouco conhecidos. Acredito que minhas expetativas sejam buscar um pouco mais de justiça para Juliette e mostrar um pouco do trabalho árduo das protetoras de animais.

Gostaria de agradecer por essa oportunidade, muito obrigada.

1 comentário

  1. Esse traste não merece nem viver, lixo, escória, verme, não há “adjetivos” pra um ser abjeto como este! Zoofilia é crime, é abominável…

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