Capitão do corpo de bombeiros atropela ciclista, não presta socorro, bate o carro na tentativa de fuga e deixa o local do crime correndo

Na madrugada do dia 11 de janeiro de 2021 (segunda-feira), por volta das 5h40, João Maurício Correia Passos, de 36 anos, dirigia pela Avenida Lúcio Costa, na orla do Recreio (RJ), em velocidade muito acima do limite estabelecido pela via (70 km/h), segundo indicaram testemunhas e vídeo de uma câmera de segurança que registrou o momento no qual o bombeiro atropelou Cláudio Leite da Silva, de 57 anos. O taxista aposentado, que pedalava no Recreio dos Bandeirantes cotidianamente, foi brutalmente atingido pelo veículo numa colisão direta.

João Maurício Correia Passos, de 36 anos, capitão do Corpo de Bombeiros, dirigia o carro que atropelou e matou o ciclista Cláudio Leite da Silva Foto: Reprodução
João Maurício Correia Passos. Foto: Reprodução

A bicicleta ficou destruída e Cláudio não resistiu ao impacto. João Maurício ignorou a vítima e dirigiu por mais 300 metros até bater o carro no meio-fio. Após a batida, ele saiu do veículo e iniciou uma fuga a pé. Questionado pela razão de ter fugido, ele declarou ao delegado que “temia ser linchado”. A “justificativa” foi a mesma oferecida por Márcio de Oliveira Almeida, ou “Marcinho”, futebolista (atualmente sem clube) que, no ano passado, atropelou e matou um casal de professores na mesma região.

Capitão do Corpo Bombeiros que atropela e mata ciclista tem audiência de  custódia | Ancelmo - O Globo
Bicicleta da vítima. Foto: Reprodução/O Globo
Carro que atropelou ciclista no Recreio foi abandonado; motorista fugiu a pé — Foto: Reprodução/TV Globo
Carro com o qual João Maurício atropelou Cláudio Leite da Silva. Foto: Reprodução/G1

Marcos, que trabalha num quiosque próximo ao local do acidente e viu Passos deixando a cena do crime, informou que “Ele estava muito embriagado. Ele estava altamente bêbado. (…) tínhamos visto garrafas de bebida dentro do carro. Eram umas quatro garrafas”.

Antes do atropelamento, o acusado foi visto na loja de conveniência de um posto próximo. Ele alegou estar à procura somente de um energético e não de bebida alcoólica. O delegado da 42.ª DP (Recreio) declarou que a delegacia requisitou as imagens das câmeras da loja, e pelo menos uma foto já evidenciou o que o capitão fazia antes de decidir assumir a direção de seu carro:

Bombeiro que atropelou ciclista no Recreio aparece em vídeo, gravado minutos antes, com garrafas de vodca e uísque — Foto: Reprodução
Minutos antes do acidente, João Maurício cambaleava enquanto segurava uma garrafa de uísque e outra de vodca. Foto: Reprodução

O vídeo da câmera do estabelecimento mostra o capitão nos momentos antes de entrar em seu veículo. Aparentando estar acentuadamente alterado, as imagens o mostram cambaleando, mantendo-se em pé com dificuldade e até bebendo uma cerveja que acabara de comprar, ponto no qual ele já estava visivelmente bêbado.

João Maurício no processo de comprar uma cerveja na loja de conveniência de um posto na madrugada em que ocorreu o acidente. Foto: Reprodução/Época

Ademais, anteriormente ao acidente, o motorista bateu o carro em uma Kombi e no meio-fio, mas não considerou as batidas como sinais de que era oportuno ter parado o veículo para evitar uma casualidade mais significativa.

Alan Luxardo (delegado) também afirmou que o bombeiro “tem alguns registros de crimes anteriores. Ele tem um passado problemático e hoje acabou nesse fato lamentável”. Inclusive, tal passado foi o fator determinante para que o suspeito fosse identificado: na investigação do Hyundai HB20 de Passos foi encontrada, além de uma garrafa de uísque e uma bíblia, uma intimação do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), datada de 6 de janeiro deste ano, anunciando uma audiência de custódia relativa à sua prisão por ter agredido sua esposa — cadeirante — na casa do casal; contudo, foi libertado após a sessão. Também foi evidenciado que o último licenciamento do automóvel foi em 2018, significando que o carro estava sendo dirigido irregularmente por mais de dois anos. Por fim, ficou verificado que o bombeiro tinha 19 multas de trânsito vencidas — dez por dirigir acima do limite de velocidade, quatro por dirigir com a carteira de motorista suspensa e outras cinco por infrações diversas —, indicando que sua habilitação deveria estar suspensa.

Conteúdo no interior do HB20 de João Maurício. Fotos: Estefan Radovicz/Agência O Dia

A cônjuge do capitão, de 44 anos, atualmente desempregada (de se esperar, considerando as oportunidades escassas para deficiente físico e o atual estado da economia), recebeu uma medida protetiva contra o marido em virtude da violência doméstica que sofrera, para que ficasse a, no mínimo, 300 metros de distância da esposa, consoante reportou O Segredo.

Durante os 14 anos de casamento, João Maurício foi acusado pela esposa de ameaça, injúria e lesão corporal, alegações registradas em 11 boletins de ocorrência, feitos em três delegacias cariocas distintas. Os crimes teriam ocorrido no apartamento do casal, onde também moram os dois filhos, de 11 e 8 anos. Alguns dos depoimentos da moça assinalaram que o comportamento agressivo do bombeiro decorria, pelo menos em certas ocasiões, do abuso de álcool.

Agentes da Polícia Civil e da 2.ª seção do Estado Maior do Corpo de Bombeiros agiram conjuntamente para capturar o suspeito. A prisão — feita em flagrante, pois, embora não tenha ocorrido durante o ato ou logo após, o sujeito foi encontrado logo depois da comissão do crime (em conformidade com o estabelecido no artigo 302, inciso IV do Código de Processo Penal) —, foi realizada às 10h do dia 12 de janeiro, depois de Passos ter sido avistado deixando o refúgio na casa de um amigo.

Encaminhamento do capitão Corpo de Bombeiros à 42ª DP. Fotos: Estefan Radovicz/Agência O Dia

Após prestar depoimento à 42.ª DP, o bombeiro foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) do Centro do Rio para fazer o exame de alcoolemia. O teste deu negativo, mas a Polícia Civil atribuiu o resultado ao tempo entre o crime e o exame, que foi de seis horas (a conclusão mais sensata, diga-se de passagem). O bombeiro não permitiu o recolhimento de amostras de sangue e urina, conforme indicou artigo do UOL.

A denúncia contra João Maurício foi apresentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) no dia 19 de janeiro, indiciando o réu por homicídio culposo (quando não há intenção de cometer o crime, mas o resultado ocorre em razão de negligência, imprudência ou imperícia do agente). O entendimento da Polícia Civil foi distinto: a instituição acreditava que a denúncia deveria ser por homicídio doloso (quando há intenção de matar).

No oferecimento da denúncia, o MPRJ indicou que o bombeiro foi: “Imprudente ao dirigir o automóvel com sua capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool, conforme demonstram as imagens feitas instantes antes em posto de gasolina próximo ao local do atropelamento, bem como o termo de declaração que consta dos autos, o que o fez perder o controle do veículo e atropelar a vítima, que pedalava sua bicicleta, normalmente, pela sua mão de direção”.

O posicionamento do MPRJ é juridicamente correto, por força do julgamento do Habeas Corpus HC 107.801/SP. O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu que a direção de veículo automotor, enquanto embriagado, que resulte na comissão de crime (como lesão corporal ou homicídio), revelaria imprudência do condutor e, portanto, culpa. Na hipótese, o dolo (intenção de cometer o crime) só ficaria configurado caso a embriaguez fosse preordenada, ou seja, se o agente ingerisse substâncias que alterem suas capacidades psicomotoras conscientemente para, então, realizar o crime (ex.: fulano se embebeda para se encorajar e matar ciclano).

No julgamento, João não será apoiado nem por sua mãe. Em entrevista ao repórter Carlos Briggs, da Rádio Bandnews FM Rio, ela criticou até a decisão judicial que libertou seu filho após sua prisão por agredir e tentar matar a própria mulher: “Não devia ter posto ele em liberdade. Se ela [a juíza] tivesse mantido ele preso, o ciclista não estaria morto. Ele que responda”, declarou Marlene Passos. Ela também demonstrou sua solidariedade com a família da vítima: “Eu queria pedir perdão à família do ciclista, mas eu não tenho coragem”, disse a mãe, com a voz embargada.

O pai do bombeiro também foi entrevistado. Ele reconheceu que o filho era alcóolatra e que seu vício já o havia deixado impedido de dirigir. Inclusive, ele revelou que impedimento o foi imposto depois de um acidente em outubro de 2019, o qual, vejam só, deixou sua esposa paraplégica depois de passar 50 dias internada. A cônjuge do capitão também relatou o fato, mas informou que o acidente que a privou da capacidade motora abaixo dos quadris ocorreu em 2018.

Cláudio, o ciclista assassinado, era casado e não tinha filhos. Depois da aposentadoria, tornou-se um entusiasta do ciclismo, pedalando diariamente e até participando de competições do esporte. Um amigo ciclista lamentou a perda e chamou atenção para esse tipo de acidente:

“Cláudio é um taxista aposentado, pedala todos os dia no Recreio dos Bandeirantes. Apaixonado por ciclismo. Acho que como todos nós. Eu pedalo há 30 anos e já perdi cinco amigos dessa forma fatal. E a gente sai todos os dias 4h30, cinco horas da manhã, e esse tipo de incidente é uma coisa corriqueira, principalmente aqui no Recreio, que as pessoas saem das baladas, enfim. A gente tá sempre exposto a esse tipo de acidente”.

Cláudio Leite da Silva. Foto: Reprodução

Se beber, por favor, não dirija. O valor das vidas que serão arriscadas certamente excede o do que se pagaria por um serviço de transporte privado.

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