O caso Starkweather e Fugate: Bonnie e Clyde dos anos 50 ou a coação de uma garota para cooperar com um frio assassino em série?

Caril Ann Fugate (14) e Charles Raymond Starkweather (19) no quarto alugado pelo rapaz, meses antes de saírem numa viagem em que fizeram 10 vítimas. Fonte: Journal Star

No ano de 1913, o método de execução da pena capital no estado de Nebraska, EUA, foi alterado, optando-se pela cadeira elétrica em vez do enforcamento. O estado carrega a distinção de ser a última unidade da federação americana a manter a execução por eletrocussão como método exclusivo de cumprimento da pena de morte, até a Suprema Corte de Nebraska determinar, em 2008, que a cadeira elétrica era uma “punição cruel e incomum”, vedando sua aplicação. No ano seguinte, a legislação estatal foi renovada, decidindo-se pela injeção letal como método de execução.

Num período de 35 anos, de 1959 até 1994, ano em que Harold Otey foi condenado à morte pelo estupro e homicídio de uma estudante e garçonete, apenas um indivíduo foi morto por eletrocussão: Charles Starkweather; jovem de 19 anos que, em janeiro de 1958, acompanhado de sua namorada — 5 anos mais nova —, fez 10 vítimas, incluindo bebês e idosos.

A vida de Charles Starkweather

Charles durante seu julgamento em 1958. Fonte: Reprodução.

Charles Raymond Starkweather, conhecido pelos amigos como “Chuck” ou “Charlie”, nasceu em 24 de novembro de 1938 em Lincoln, Nebraska, EUA, período em que o país ainda lidava com a “Grande Depressão”. Charles foi o terceiro dos sete filhos, e seus pais, Guy e Helen, viviam uma situação financeira desfavorável: o pai era carpinteiro e ficava desempregado com frequência, em virtude da artrite reumatoide que desenvolvera em ambas as mãos; Helen, por sua vez, trabalhava como garçonete.

Starkweather estudou na escola primária Saratoga, na cidade em que nasceu, e teve de lidar com o bullying desde sua infância. As crianças riam dele pelos seus óculos de lentes grossas, seu distúrbio de fala e suas pernas arqueadas (condição derivada de um defeito de nascença que ocasiona o genu varum ou joelho varo). Há relatos de que sua primeira forma de lidar com a gozação foi levar uma faca para o colégio e a mostrar para quem o “zoasse”.

Com o passar dos anos, Charles desenvolveu seu físico por meio de intensos treinos, e passou a revidar o bullying que sofreu quando mais jovem. Gradativamente, ele começou a cultivar ódio por todos aqueles que não gostava, e sua conduta tornava-se mais volátil e violenta conforme amadurecia. Segundo um amigo de Starkweather no high school:

Ele poderia ser a pessoa mais gentil que você já viu e faria qualquer coisa se gostasse de você. Ele também era muito divertido de se estar próximo. Tudo era apenas uma grande piada para ele. Mas Charles tinha esse outro lado, exageradamente mau, cruel. Se visse algum pobre coitado na rua que fosse maior do que ele, mais bonito ou mais bem vestido, tentaria “reduzir a pessoa ao seu tamanho” (a expressão down to size, comum no inglês, é usada para designar uma situação em que alguém pretende fazer com que um terceiro perceba que não é tão poderoso ou importante quanto inicialmente pensava).

Com 16 anos, Charles decidiu parar de estudar e deixou o high school, passando a trabalhar como carregador de caminhões para um jornal local. Na época, Starkwheather ficou encantado pelo ator James Dean, com quem guardava notória semelhança estética, e cujo estilo passara a imitar. O ator posava como uma espécie de emblema da rebeldia que fascinava a juventude do período. Charles o admirava especialmente pelo seu papel em “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause), de 1955, e relata a história de um adolescente que, rejeitando os valores que foram ensinados até ali, ao se mudar para uma nova cidade com a família, procura por um lugar ou um grupo que o aceite e busca pelo propósito e significado de sua vida, jornada que enfrenta se envolvendo e enfrentando membros de gangues enquanto se conforta com a companhia de Judy (interpretada por Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo), outros dois adolescentes igualmente perturbados pelos desafios que confrontavam Jim (James Dean).

Charles Starkweather e James Dean, respectivamente. Fontes: Journal Star e reprodução.

No mesmo período, Charles se apaixonou por Caril Ann Fugate, uma jovem de espírito igualmente rebelde, irmã mais nova de sua ex-namorada, e com quem iniciou um relacionamento. No momento em que começaram a namorar, Caril tinha apenas 13 anos de idade.

Ao ser expulso de casa por um desentendimento com seu pai, por ele ter pago o conserto do carro após Caril batê-lo enquanto Charles a ensinava a dirigir, o jovem se demitiu e arranjou outro emprego como coletor de lixo, ficando conhecido, durante seu tempo no cargo, por gritar “vá para o inferno!” para estranhos nas ruas.

O maior aprendizado adquirido por Charles enquanto trabalhou como lixeiro foi o conhecimento das rotas da cidade, o que eventualmente o auxiliaria na comissão e fuga de seus crimes.

Charles recebia um salário muito baixo, e passou a acreditar que seria vítima da injustiça da pobreza; achando que o mundo sempre esteve contra ele. Após ser demitido do emprego de lixeiro por não cumprir seus deveres (um de seus empregadores disse que o mandava fazer alguma coisa com frequência e que ele fora o mais idiota de todos os seus empregados), e mandado embora do quarto que alugava até que pagasse o aluguel atrasado, com 19 anos, Charles se convenceu de que a conquista da estabilidade financeira somente seria possível se entrasse para o mundo do crime.

O primeiro crime

Em 01 de dezembro de 1957, Starkweather praticou o seu primeiro crime. Sua vítima foi Robert Colvert, 21 anos, atendente numa loja de conveniência em um posto de gasolina em Lincoln. Naquele dia, Colvert teria se recusado a vender um bicho de pelúcia para Charles no cartão de crédito. Enfurecido, Starkweather foi e voltou algumas vezes para o estabelecimento para comprar coisas banais. No final do dia, retornou ao posto pela última vez; porém, ostentava uma escopeta, ameaçando Colvert para que o entregasse $100 do caixa. Mesmo após Robert ter entregado a ele o dinheiro, Charles o sequestrou, colocando-o em seu carro e dirigiu até uma área remota. Quando “Charlie” finalmente parou o veículo, o atendente tentou agarrar a arma de suas mãos; para seu horror, a tentativa foi sem sucesso, e Charles consumou seu homicídio com um tiro na cabeça de Colvert.

Em uma entrevista ao grupo midiático “Beatrice Daily Sun”, em 1958, Starkweather afirmou que, inicialmente, ele queria somente o dinheiro para fugir com Caril; porém, cometer o assassinato fez que ele tomasse gosto pelo ato, o que o fez desejar matar novamente.

Janeiro de 1958: um dos maiores e brutais assassinatos em série da história humana

Dia 21 de janeiro de 1958: Caril Ann, de apenas 14 anos, volta para casa após a aula. Ela mora com sua família numa casa pequena em Belmont, uma zona pobre de Lincoln. Ao entrar em casa, encontra o namorado apontando uma arma para o seu rosto, alegando que membros de sua gangue estavam mantendo seus pais e sua meia-irmã mais nova, que ainda não havia completado 3 anos, como reféns, e que ela deveria cooperar com suas ordens para que todos sobrevivessem. Segundo a moça: “Ele me ameaçou, dizendo que se eu não fizesse tudo o que dissesse, ele daria um telefonema e sua gangue mataria minha família e eu seria a culpada”.

Nesse momento, no entanto, as investigações apontaram que todos já estariam mortos e seus corpos escondidos nas dependências da casa: o cadáver de Marion foi encontrado coberto por papel no galinheiro; o da mãe e da meia-irmã foram escondidos num anexo à casa principal. Os adultos foram baleados na cabeça, e Betty Jean, que tinha apenas 3 anos, foi espancada até a morte. Caril afirma ter tomado conhecimento das mortes apenas após sua prisão.

Um pouco antes de chegar, Charles e os pais de Caril discutiam fervorosamente sobre a relação dos dois. Marion Bartlett (58), padrasto da moça, e sua mãe, Velda Bartlett (36), reprovavam o relacionamento dos dois, tendo em vista a diferença de idade, as tendências raivosas e violentas de Charles e o seu trabalho, cujo salário era insuficiente para que sustentasse a si mesmo e à Caril, muito menos uma família. A briga, iniciada após Marion e Velda lhe negarem acesso à casa, teria sido o estopim para que Charles concretizasse o que provavelmente já planejava, ou ao menos desejava, haveria algum tempo, considerando que sua relação com os pais de Caril sempre foi mantida por desavenças.

Após o massacre, o casal viveu na casa da família Bartlett por seis dias. Caril ficou encarregada de afastar qualquer visitante que fosse à residência. Durante o período, sua irmã, avó, cunhado e um irmão de Charlie compareceram à porta da pequena casa em que estavam, e todos foram informados por Caril que toda a família estava gripada. Depois dos primeiros dias, a moça decidiu colar um aviso na porta de entrada: “Fiquem longe. Todo mundo está gripado. Miss Bartlett.” Segundo Caril, isso foi uma tentativa de alertar que havia algo errado, pois tecnicamente, sua irmã de dois anos era a única “Miss Bartlett” da casa.

A avó de Caril suspeitou da situação e decidiu chamar a polícia para que investigasse a propriedade. Quando as autoridades chegaram, porém, foram encontrados somente os corpos dos pais e meia-irmã de Caril; o casal já havia partido para uma viagem regada a roubos e assassinatos.

Quatro horas antes, Starkweather e Fugate foram a um posto de beira de estrada para abastecer o carro e comprar munições, mais precisamente, uma caixa com balas de calibre .410 para escopetas e duas caixas de munição .225 para rifle. Depois de realizar as compras, seguiram rumo a Bennet, área rural com diversas fazendas, localizada aproximadamente a 25km ao sudeste de Lincoln.

As armas de Starkweather. Fonte: Journal Star

Charles os levou a fazenda de um velho amigo da família, August Meyer (70), que costumava convidar os Starkweather para caçar em sua propriedade. Quando chegaram, Meyer os recebeu educadamente, até oferecendo alguns de seus cavalos para auxiliar na recuperação do carro de Charles, que ficou preso na lama num trecho próximo à fazenda, um pouco antes de chegarem. Meyer conduziu os dois aos estábulos, sendo o último percurso que faria em vida: no caminho, Charles disparou contra o velho com a sua escopeta, o matando na hora. Não contente, o jovem decidiu matar o cachorro de Meyer com requintes de crueldade, o agredindo com a arma até a morte do pobre animal, danificando o armamento no processo.

Mais tarde na mesma noite, um casal local que passava pela estrada em que o carro de Charles ficou atolado — Robert Jensen (17) e Carol King (16) — ofereceu uma carona para Starkweather e Fugate. A bondade dos jovens foi retribuída com disparos contra a cabeça de ambos. Antes de assassinar King, o sadismo e perversão de “Charlie” foram evidenciados pela tentativa estuprar a moça, embora sem sucesso. Ao concluir os assassinatos, Starkweather deixou o corpo dos estudantes num abrigo de tempestades abandonado; Meyer, o velho, foi largado em uma lavanderia. A viagem foi prosseguida no carro de Jensen.

Antes de continuar a história, é importante ressalvar que há controvérsias quantos aos eventos da noite descrita (27 de janeiro de 1958). Diferentes fontes divergem ao relatar, por exemplo a ordem dos encontros e acontecimentos: uma versão descreve que Charles e Caril foram interpelados por Jensen e King antes de chegarem à fazenda de Meyer; outrossim, não há confirmação quanto ao estupro de King: relata-se que Charles não conseguiu forçar a moça ao ato, e sua frustração o levou a matá-la também. Por fim, Starkweather admitiu assassinar apenas Jensen, alegando que King teria sido morta por Caril; Fugate nega essa versão, afirmando que não saiu do carro em momento algum.

De volta a Lincoln, Starkweather utilizou seu grande conhecimento da cidade (formado enquanto trabalhou como lixeiro) para navegar por sua área mais nobre, tendo como destino a casa do presidente da Capital Steel Company (Companhia Siderúrgica Capital), C. Lauer Ward (47). Depois de conseguir acesso à garagem da propriedade, Charles entrou na residência, encontrando a doméstica Lillian Fend (51) e Clara Ward (46). Ele arrastou as duas para o segundo andar, as amordaçou e as prendeu à cama, apunhalando-as até que suas almas deixassem seus corpos. Após isso, Charles (mais uma vez) matou o cachorro da família, quebrando seu pescoço para que não pudesse alertar Ward da presença de estranhos na casa.

Por volta das 17h30 do dia 28, Lauer Ward voltou para casa após uma reunião com o governador de Nebraska, Victor Anderson. Esperando por uma recepção calorosa de sua esposa, ao entrar em sua casa, foi recebido com tiros na cabeça e pescoço, antes de ser esfaqueado nas costas.

Temendo a chegada dos policiais, que já procurava o paradeiro do casal desde que deixaram a casa dos pais de Caril, Starkweather e Fugate roubaram o luxuoso carro de Ward (um Packard preto de modelo 1956) e viajaram rumo ao estado de Washington, localizado no extremo oeste dos EUA, onde morava um irmão de Charles.

A esse ponto, a cidade de Lincoln estava tomada pelo medo. Era a primeira vez que um assassino em série estava à solta. Os homicidios cometidos por Charles já eram de conhecimento da população, e havia uma inquietação geral pelo receio de um ataque repentino do serial killer. Para prevenir a comissão de mais crimes e capturar Charles e Caril, o xerife Merle Karnopp exigiu que a dupla fosse procurada de quarteirão a quarteirão, assim como pediu que mais forças policiais fossem convocadas. Agências policiais locais averiguavam o paradeiro do casal de porta em porta. O governador convocou a Guarda Nacional de Nebraska para auxiliar na busca e prevenção. No total, estima-se que mais de 1.200 agentes policiais atuavam no caso.

Dois soldados da Guarda Nacional ficam de guarda no centro da cidade de Lincoln, Nebraska, em janeiro de 1958. Fonte: Journal Star

No dia 29, “Chuck” e Caril encontravam-se em Douglas, cidade pequena do estado de Wyoming, que fica a oeste de Nebraska, há mais de 800km de Lincoln. Charles decidiu que trocariam de carro, em razão de que o Packard ser “muito quente” para ele. Próximo à Ponte Natural Ayers, Starkweather estimou a oportunidade de arrumar um novo veículo ao avistar Merle Collison (34), um vendedor de sapatos de Montana que viajava a trabalho, cochilando em seu carro, que estava parado no acostamento da rodovia.

Charles se dirigiu ao automóvel e bateu no vidro algumas vezes para acordar o vendedor. Quando Collison acordou, “Chuck” deu um tiro pela janela lateral do carro e demandou que ele deixasse o veículo. Merle recusou a colaborar com Starkweather que, para resolver o impasse, abriu a porta do motorista deu 9 tiros na cabeça do viajante.

Charles e Caril tentaram fugir imediatamente da cena, mas foram impedidos por um equipamento que ainda era relativamente incomum naquela época: o freio de mão. O carro do Collison era equipado com o instrumento que ainda era desconhecido por Starkweather, que tentou dirigir o veículo com o freio ainda engatado e falhou miseravelmente.

Noticiando a dificuldade que o jovem estava tendo com o carro, um motorista de passagem parou para averiguar sobre a possibilidade de Charles precisar de auxílio com o carro. O homem era Joe Sprinkle (40), um geologista. Respondendo à oferta, Chuck ordenou que Sprinkle levantasse as mãos, concluindo com: “Me ajuda a liberar o freio de mão ou eu te mato”. Sprinkle, depois de ouvir a ameaça, verificou que havia um cadáver debaixo do painel do carro — outras versões indicam que Sprinkle fora golpeado pelo rifle de Charles assim que se debruçou no carro; o final do encontro, entretanto, não difere. Percebendo que fora descoberto, Charles puxou seu rifle (ou sua escopeta, não sendo certo quais das armas foram usadas. Levando em consideração os estragos sofridos pela shotgun, a conclusão mais acertada parece ser a de que ele agarrou o rifle). Para a sorte de Joe, ele era mais alto e tinha a vantagem física no embate, o que o ajudou a brigar pela arma e tirá-la da posse do assassino em série.

Enquanto brigavam, William Romer, vice-xerife do condado de Natrona apareceu no local. Indo investigar o que se passava ali, uma garota — Caril — saiu do carro desesperadamente, correndo em direção ao xerife e gritando algo como “É o Starkweather, ele vai me matar” ou “Ele vai me matar. Ele é louco. Ele acabou de matar um homem.”

Percebendo que logo ficaria encurralado, Charles voltou para o Packard e retomou seu plano de fuga. Chuck foi perseguido pelas forças policiais locais, chegando a mais de 160km/h e ultrapassando bloqueios de estrada. Durante a perseguição, um tiro destruiu parcialmente o para-brisa de Charles, e alguns pedaços de vidro o cortaram, em alguns casos fazendo cortes mais profundos. Considerando a situação, Starkweather finalmente parou o carro e se rendeu. Earl Heflin, xerife do condado de Converse, em Wyoming, disse sobre o caso: “Ele pensou que estava sangrando até a morte. Foi por isso que ele parou. Esse é o tipo de filho da puta amarelo que ele é”.

Entrevistado sobre sua captura após sua prisão, Charles declarou que ele sofrera cortes no lóbulo de uma de suas orelhas e na mão direita, assim como não estava sem munição para a única arma que lhe restava. Não fosse esse o caso, Charles deixou transparecer sua pretensiosidade: “Eles nunca teriam me pego se eu não tivesse parado”.

Julgamento e Condenação de Charles Starkweather

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Starkweather enquanto esteve preso em Wyoming. Fonte: Casper College Western History Center.

Starkweather consentiu à extradição de Wyoming para Nebraska para ser julgado, acreditando que ambos o executariam. Nos poucos dias em que ficou preso no condado de Douglas, Charles sentiu-se muito confortável com a presença midiática, sorrindo para as câmeras e admitindo livremente ter cometido os assassinatos de que era acusado — inclusive o de Robert Colvert, única morte que promoveu antes de 1958.

Charles foi julgado somente pelo homicídio qualificado de Merle Collison (novamente, esse é um ponto controvertido, havendo artigos que afirmam que a acusação contra Starkweather seria pelo homicídio de Robert Jensen. Considerando as circunstâncias nas quais sua prisão ocorreu, e que dificilmente seria acusado somente por matar Jensen — e não também pela execução de Carol King — a conclusão mais sensata é a de que seu julgamento foi pelo assassinato de Collison). Seu julgamento teve início no dia 5 de maio de 1958. A defesa de Charles apurou em favor de sua inocência e alegou, com o desacordo do réu, que o crime derivou de sua insanidade.

Ao ser levado à penitenciária de Lincoln, Charles declarou que ele já havia firmado sua convicção e acreditava que deveria morrer. No dia 23 de maio, o júri do Tribunal Distrital de Lancaster concordou com o entendimento de Starkweather, o julgando culpado. Pelo crime que cometeu, a pena a qual seria condenado era taxativa: à morte — ou melhor, execução por cadeira elétrica.

Até o fim de sua vida, Charles nunca deixou de demonstrar frieza em sua conduta. Após ser condenado à morte, Starkweather disse a seu pai: “Se eu quero fazer minha expiação com Deus e ser eletrocutado, isso é problema meu”. Sem dúvidas, uma observação perspicaz, sem prejuízo de sua frigidez.

Charles preferiu não compartilhar o que passava em sua mente em seus últimos momentos, optando por não oferecer últimas palavras. Seus pensamentos finais, entretanto, podem ser sumarizados por uma carta que enviou a seus pais pouco tempo antes de sua execução: “Mas pai, eu não estou realmente arrependido pelo que fiz porque pela primeira vez, eu e Caril, nos divertimos bastante”. Talvez, no fim das contas, Chuck recordasse o fim de janeiro de 1958 apenas como uma viagem agradável com sua namorada.

Charles Raymond Starkweather foi executado por eletrocussão na cadeira elétrica na Penitenciária do Estado de Nebraska, em Lincoln, às 00h14 do dia 25 de junho de 1959, aos 20 anos de idade. Seu enterro foi no Cemitério Wyuka, no qual compartilha o terreno com 5 de suas vítimas.

As motivações de Starkweather

A descrição das ações de Charles, tanto as criminosas como suas aparições em público, assim como os pensamentos que compartilhou com a mídia, evidenciam que não há muito o que se discutir neste tópico.

Durante seu julgamento, algumas versões foram apresentadas por diferentes grupos: psiquiatras que analisaram Charles atribuíram os assassinatos a paranoia; seus amigos afirmaram que seria uma forma de retaliação em virtude de todos serem contra seu casamento com Caril, cujos pedidos nunca foram aceitos pelos pais da menina — que, frise-se, possuía apenas 14 anos. Sei pai deu, a mais auspiciosa das justificativas, dizendo que seu filho era apenas “um menino devagar crescendo rápido demais”. 

Todavia, acreditamos que, neste caso, há uma explicação deveras simples. Em síntese, Starkweather era apaixonado por matar; de fato, não se tratava apenas de falta de remorso, e as mortes, em sua maioria, não estavam taxativamente vinculadas à realização de um objetivo, vale dizer, no mínimo, ele poderia ter promovido outros métodos para chegar aos resultados que buscava. Durante sua “viagem”, porém, ele fez questão de assassinar todos aqueles a quem teve oportunidade de tirar a vida, o fazendo com requintes de crueldade. Aliás, também não discriminou nenhuma de suas vítimas: matou idosos, mulheres, bebês e animais indistintamente.

É de se considerar que a persona de Starkweather era, pelo menos em parte, o produto de uma visão deturpada que teria da rebeldia jovem, consoante foi inspirado pelo ator James Dean. Possivelmente, ele se via como o “Rebelde sem Causa”.

No fim, embora dificilmente houvesse qualquer tipo de arrependimento em seu coração, Charles pode ter considerado que, talvez, exagerou um pouco.

“Eu sempre quis ser um criminoso, mas não um dessa proporção”, Starkweather confessou ao xerife Merle Karnopp.

Na música “Nebraska”, de 1982, Bruce Springsteen canta os eventos de janeiro de 1958 sob a perspectiva de Starkweather. Nos últimos versos da canção, o cantor sumariza com maestria o que teria motivado o jovem baixinho e truculento:

Eles queriam saber por que eu fiz o que fiz

Bem, senhor, acho que há apenas uma maldade neste mundo.

Por fim, vale mencionar que Charles Starkweather é referencial na “escala da maldade”, índice criado pelo psiquiatra forense Michael Stone, da Universidade de Colúmbia, nos EUA, que basicamente avalia o motivo, o método e a crueldade para calcular o nível de periculosidade do agente que perpetrou determinado crime ou crimes. Na escala de 1 a 22, que é crescente, Charles é o exemplo oferecido na décima quinta posição: “Ataques de psicopatia ou múltiplos assassinatos”.

O julgamento de Caril Ann Fugate: vítima ou cúmplice?

Caril Fugate esteve com Starkweather durante a maioria de seus assassinatos; contudo, a extensão de sua participação na consumação dos homicídios — se ampla, moderada ou nula — permanece um mistério.

A história contada por Caril manteve-se consistente desde que foi questionada pela primeira vez sobre as vítimas feitas por Charles e — supostamente — por ela.

Consoante exposto anteriormente, Caril alega ter descoberto sobre a morte de seus pais e meia-irmã somente ao ser presa. Segundo Fugate, depois de namorar com Charles por alguns meses, ela terminou com o rapaz no dia 19 de janeiro de 1958. Dois dias depois, ela voltou para casa do colégio e teria sido coagida a colaborar com Starkweather para garantir a segurança de seus pais.

O comportamento de Caril após ser presa preventivamente corrobora essa versão. Relata-se que ela parecia muito nervosa e chateada, sugerindo um estado de choque com os últimos dias. Na prisão no condado de Douglas, em que ficou por poucos dias antes de ser transferida, ela teve de ser sedada para que parasse de clamar por sua mãe. Na manhã seguinte, com o efeito cessado, ela voltou a suplicar pela mãe, inquirindo sobre o porquê de não poder contactar seus pais. O vice xerife Heflin contou para repórteres que ele “não achava que ela sabia que seus pais estavam mortos”. Quando as autoridades de Nebraska finalmente confirmaram a morte da família, Caril ficou em prantos, e passou a dobrar lenços em pequenas bonecas para tentar se acalmar.

Charles, em princípio, sustentou a ideia de que Caril era sua “prisioneira”, afirmando que “ela não teve nada a ver com isso. Ela tentou fugir algumas vezes”. Isso não impediu de que ela fosse acusada pelos mesmos crimes que Chuck, mas indicava que a menina tinha chances modestas de ser absolvida, mesmo com a população tendo formado seu entendimento muito antes do julgamento: no imaginário popular, Caril era a Bonnie do Clyde de Charles. Essa era a expectativa dos advogados de Caril, que também esperavam que os policiais que testemunhassem corroborariam a história oferecida pela garota. Nessas circunstâncias, o julgamento de Caril começo no dia 27 de outubro de 1958.

Caril se dirigindo a uma audiência. Fonte: Journal Star

Um “testemunho surpresa”, entretanto, provou que a esperança da defesa de Fugate era errônea. Romer, xerife do condado de Natrona, testemunhou que Caril teria admitido presenciar o massacre de sua família, inclusive mencionando diversos detalhes que foram atestados por perícias posteriores.

Mesmo em 1976, quando Caril foi libertada sob condicional, Romer reforçou sua convicção, trazendo especulações que não podem ser atestadas por nenhuma fonte da época (ou atual):

“Ela me disse que inventaram uma história para deixá-la bonita para que ela pudesse sair. Eles amarraram suas mãos e ela as mexeu, de modo que ficou com queimaduras de corda no pulso. Assim, eles poderiam dizer que ela era uma prisioneira”.

No aniversário de 25 anos dos asssassinatos, o retorno de seu nome às manchetes motivou Caril a aparecer em um programa de TV em que os participantes eram sujeitos a métodos de detecção de mentiras para retificar a percepção pública sobre sua participação nos crimes. Os resultados indicaram que ela falava a verdade sobre não ter sido cúmplice nas execuções, mas Romer, provável signitário do mantra de que algo se torna verdade se você acreditar veementemente de que está certo, declarou que o teste “Não me convenceria de que ela não era uma companheira voluntária de Charlie”.

O xerife Heflin ratificou os relatos de Romer, alegando que Caril tinha recortes no bolso relacionados ao assassinato de sua família. Artigos jornalísticos da época, que foram aclamados pela crítica, em contrapartida, não estão em consonância com o testemunho de nenhum dos oficiais.

O que garantiu a condenação de Caril foi, porém, a testemunha principal em seu julgamento: Charles Starkweather (!). Devido à colaboração de Caril com a investigação dos assassinatos, assim como ela tê-lo dito que nunca mais queria o ver, Chuck, já membro do corredor da morte, se voltou contra a ex-namorada e mudou completamente sua história inicial. Antes partidário da versão de que Caril seria sua refém, Starkweather declarou que ela foi sua cúmplice por livre e espontânea vontade, tendo diversas chances de escapar quando Charles a deixou sozinha e com acesso a suas armas — carregadas. Não só isso, ele a descreveu como a “pessoa mais dedo leve no gatilho (trigger happy)” que havia conhecido, e que ela teria participado ativamente dos assassinatos de várias vítimas, incluindo Merle Collison e Carol King, as quais teria pessoalmente executado.

A citação mais célebre de Charles no decurso de seu testemunho é de que “Ela deveria estar sentada no meu colo [na cadeira elétrica]”. O advogado de Caril relembra que o julgamento foi completamente eivado de injustiças, sobretudo no tocante aos testemunhos de Charles, e que, atualmente, situação da mesma sorte seria inaceitável.

O juiz Harry A. Spencer concordou com os pontos trazidos por Starkweather e os agentes de polícia, entendendo que, realmente, Caril teria tido várias oportunidades para escapar, mas não o fez. Seu advogado alegou que essa concepção era completamente equivocada, considerando que, no primeiro momento que vislumbrou uma chance de se livrar de Starkweather e manter-se segura, ou seja, quando correu para a tutela do xerife Romer assim que o viu, comprovava que ela esperava pelo momento ideal para fugir.

Caril é levada em custódia no condado de Douglas, Wyoming, pelo xerife Romer. Fonte: Casper College Western History Center

Depois de quase um mês de audiências, o júri, após 10 horas de deliberação, expediu sua decisão em 21 de novembro de 1958, condenando Caril, já com 15 anos, à prisão perpétua, pelo crime de homicídio qualificado. Sua pena foi distinta da imposta a Charles por ela ainda ser menor de idade.

Tentando consolar a inconsolável neta, a avó de Caril, quem alertou o departamento de polícia pela primeira vez sobre a situação “peculiar” do ex-casal nos dias em que moraram na casa dos finados pais de Fugate, a disse que “Você tem esperança e você tem vida” e, de fato, ela estava correta.

De 1958 a 1976 (ano em que sua sentença foi reduzida devido a uma decisão da Suprema Corte que declarou inconstitucionais sentenças que condenassem menores à prisão perpétua), Caril serviu sua pena no Centro Correcional para Mulheres de Nebraska, localizado na cidade de York. Enquanto prisioneira, Fugate demonstrou comportamento exemplar, completando seus estudos e eventualmente tornando-se colunista de um jornal local. Após cumprir quase 18 anos de pena, Caril foi libertada sob condicional.

Depois de ser libertada, Fugate trabalhou como auxiliar de zeladoria e enfermeira. Atualmente, já está aposentada.

Em 2007, se casou com Frederick A. Clair, maquinista que também havia trabalhado para o Serviço Nacional de Meteorologia (National Weather Service). Um acidente de carro a deixou gravemente ferida e viúva em 2013, quando Frederick capotou o veículo e não resistiu às lesões. Caril não se casou novamente, e continua utilizando seu nome de casada: Caril Ann Clair.

Caril Ann Clair e o marido falecido, Frederick A. Clair. Fonte: Journal Star

Em 2017, Caril, atualmente com 76 anos, ajuizou pela segunda vez — ela fez o pleito também no ano de 1996, não tendo sucesso — um pedido de perdão por sua condenação por homicídio, fundamentando seu pedido no fato de que esse é um fardo que ela não pode mais carregar:

A ideia de que a posteridade foi levada a acreditar que eu sabia e/ou testemunhei a morte da minha amada família e saí com Starkweather voluntariamente em uma onda de assassinatos é demais para eu suportar. Receber um perdão pode de alguma forma aliviar este terrível fardo.

Dessa vez, em contraste à outra ocasião em que fez a mesma requisição judicial, Caril recebeu o apoio de familiares das vítimas, especialmente da neta do casal Ward, Liza Ward. Liza afirma ter investigado o caso extensivamente para descobrir todas as circunstâncias que levou à morte de seus avós, incluindo visitas aos locais em que os assassinatos ocorreram.
“Há muitas pessoas que a apoiam, e vamos deixá-la saber disso de qualquer maneira. […] quanto mais eu descobri [sobre o caso], mais eu percebi que algo não estava certo”, declarou Ward após o voto do painel de juízes quanto ao pedido de perdão, enquanto batalhava lágrimas.

Ward apontou, astuciosamente, que ela não encontrou (assume-se que tal pesquisa se estendeu aos autos do julgamento original) quaisquer evidências que comprovassem que Clair fosse culpada além de uma dúvida razoável — no direito processual penal, impera o princípio do in dubio pro reo, segundo o qual a culpabilidade do acusado deve ser comprovada além de qualquer dúvida razoável. A principal consequência dessa afirmação é que, havendo dúvidas sobre os fatos discutidos em juízo, é forçoso reconhecer que a melhor opção é absolver o réu (sobretudo se o réu for uma adolescente de 14/15 anos), tendo em vista que é preferível a absolvição de um culpado à condenação de um inocente, pois o primeiro erro, via de regra, é muito mais grave que o segundo — e que a principal testemunha da promotoria era um indivíduo cujos relatos eram obviamente parciais e contradiziam versões anteriores do que ele havia declarado.

O painel de julgadores, composto por Pete Ricketts (governador de Nebraska), Doug Peterson (procurador-geral) e Bob Evnen (Secretário de Estado), todos apoiadores do partido republicano (de ideologia capitalista e conservadora), votou unanimemente no sentido de recusa ao perdão, com o fundamento de que, em síntese, um crime tão terrível não poderia ser perdoado.

Dave Ellis, primo de Carol King, aprovou o indeferimento do perdão pelo painel. Ellis acredita que Caril mutilou King depois de ela ter sido estuprada por Starkweather, em razão de o corpo ter sido encontrado com ligeiras mutilações. O parente sustenta essa tese pela alegação de que Caril teria sido tomada por “raiva feminina” depois de presenciar o namorado manter relações sexuais com outra. Ressalta-se que a versão mais aceita do assassinato de King e Jensen afirmam que houve apenas uma tentativa de estupro, cujo frustração teria motivado Starkweather (ou Caril, segundo afirmou Charles) a assassinar King.

A representação do caso Starkweather na mídia: reproduções e referências na TV, literatura, música e outros

O mês de janeiro de 1958 do “casal” Charles e Caril foi um dos mais documentados e adaptados para diversas formas de entretenimento em toda a história da humanidade, mormente se considerarmos as obras que referenciam ou tratam sobre o caso em trechos mais breves, de forma que apenas citar todo o repertório requereria um extenso artigo e igualmente longa pesquisa. Em razão disso, serão referenciadas apenas as produções mais eminentes, sem prejuízo de uma postagem futura que trate sobre mais obras e as analise amplamente.

A obra mais emblemática inspirada no caso Starkweather e Fugate é Badlands, de 1973, o primeiro filme dirigido por Terrence Malick. O site Rotten Tomatoes, que agrega avaliações e críticas redigidas por profissionais e/ou qualquer usuário, oferece a seguinte sinopse para a película:
“Inspirado pelos assassinos da vida real Charles Starkweather e Caril-Ann Fugate, esta história de crime e amor começa em uma cidade sem saída. A adolescente Holly (Sissy Spacek) irrita seu pai (Warren Oates) quando ela começa a namorar um garoto mais velho e rebelde (Martin Sheen). Depois que um conflito entre Holly e seu pai termina em assassinato, os jovens amantes são forçados a fugir. Na onda de crimes que se seguiu, eles viajam através do Meio-Oeste até as Badlands de Montana, iludindo as autoridades ao longo do caminho”.

O filme, que emula vagamente os acontecimentos envolvendo Starkweather e Fugate, embora seja uma excelente obra, colaborou para a perpetuação da opinião pública negativa de Caril. O casal Holly e Martin reflete uma relação clara de cumplicidade, à semelhança de Bonnie e Clyde, embora o espectador comum, que associa todo o enredo do filme aos “fatos reais” nos quais é baseado, tenda a acreditar que se trata de uma representação precisa do relacionamento de Charles e Caril. A concepção derivada da história fictícia foi relevante na vida de Fugate após ser liberada da prisão e um dos fatores que a motivou a pleitear o perdão do estado de Nebraska por crimes que sempre afirmará nunca ter cometido.

Nebraska, música de 1982 por Bruce Springsteen, citada na análise das motivações de Starkweather, traz uma narrativa dos eventos daquele fatídico mês de janeiro sob o que seria a perspectiva de Charles. O álbum “Nebraska”, do mesmo ano, homônimo da música pela qual ficou mais conhecido, faz referências aos crimes do assassino em série em diversas faixas.

Liza Ward, neta de Lauer e Clara Ward, duas vítimas de Chuck, que foi uma das principais apoiadoras do perdão requisitado por Clair em 2017, escreveu o romance Outer Valentine, publicado em 2004, que, além de contar histórias futuras paralelas aos eventos envolvendo Charles e Clair, narra os fatos sob o ponto de vista de Fugate. Naturalmente, o relato da personagem descreve a coação a que foi sujeita para que participasse — ou melhor, acompanhasse — dos delitos de Starkweather.

Em 2011, Christian Patterson publicou o Redheaded Peckerwood, uma crônica fotográfica das pessoas e lugares que Starkweather e Fugate encontraram enquanto fugiam.

O site da cidade de Lincoln (Nebraska) traz um rol prolixo das obras literárias sobre, inspiradas ou que incluem o caso Starkweather.

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