“Eu gostaria que ele nunca houvesse nascido.” O perfil de Adam Lanza, um dos mais impiedosos atiradores em massa da história dos Estados Unidos — e de todo o mundo.

Adam Peter Lanza.

“Eu gostaria que ele nunca houvesse nascido.”

Entrevistado pela revista americana The New Yorker, essa foi uma das declarações dadas por Peter Lanza, executivo bem-sucedido e pai de Adam Lanza, o assassino em massa que, no dia 14 de dezembro de 2012, na cidade de Newtown, em Connecticut, EUA, fez 27 vítimas antes de, ao notar a chegada das forças policiais, tornar-se a vigésima oitava com um disparo em sua própria cabeça.

A vida de Adam Lanza

Adam Peter Lanza nasceu em Exeter, Nova Hampshire, em 22 de abril de 1992. Suas primeiras palavras foram ditas aos 3 anos de idade, e a dificuldade de se comunicar, aliada a um diagnóstico de transtorno do processamento sensorial, o levou a atender sessões de fonoaudiologia e terapias ocupacionais no jardim de infância e primeira série.

A mãe de Adam, Nancy Lanza, foi a pessoa com quem ele manteve relações mais próximas — ressalva-se, em termos de relacionamentos pessoais físicos, considerando que Adam passou a maior parte de sua adolescência e poucos anos como adulto no ambiente virtual.

Após o nascimento de Adam, Nancy passou a ser dona de casa em tempo integral para melhor cuidar dos filhos.

Nancy e Peter se separam em 2001, quando Adam tinha 9 anos; todavia, o divórcio só foi completado oficialmente em 2009. Dificilmente o evento teria afetado Lanza substancialmente, visto que Peter se mudou para Stamford, cidade a uma hora de Newtown, e ainda via os filhos todos os fins de semana. Mais tarde, quando questionado por um psiquiatra, Adam relatou meramente que seus pais se aborreciam entre si tanto quanto o irritavam.

Peter, falando da infância de Adam, o descreveu como “um garoto estranho normal”, indicando que suas peculiaridades não exacerbavam o que se esperaria de uma criança tímida e que “pensava diferentemente”.

O jovem Lanza gostava de discutir política e se interessava em economia, assim como tinha um forte senso de humor, embora raramente deixasse seus sentimentos transparecem a quem estivesse a sua volta.

Além disso, seu fascínio por armas e pela Segunda Guerra Mundial eram evidentes. Isso pode ser explicado pelo hobby de Nancy, que era uma entusiasta de armas e regularmente levava Adam para práticas de tiro.

Ryan, irmão mais velho de Adam, descreveu a relação próxima que tinham quando eram mais novos, dizendo que passavam horas a fio no porão brincando com LEGOs e inventando histórias para as cidades que construíam.

Adam atendeu a escola primária Sandy Hook, em Newton, Connecticut, quando era mais jovem. Segundo seu pai, Peter, nos anos posteriores ao período em que estudou em Sandy Hook, Adam recordava de seus momentos como criança com zelo e narrava momentos felizes.

Contudo, circunstâncias do mesmo período indicam que o futuro homicida já estava conturbado, sobretudo no tocante aos textos que Adam começara a escrever (os quais serão posteriormente expostos).

Um parente não identificado alega que Adam era alvo de bullying, frequentemente retornando para casa com machucados por todo o corpo, o que alarmava sua mãe, que teria ameaçado ajuizar uma ação contra a escola por ignorar o abuso que seu filho sofrera. O parente acredita que essa foi a principal razão para os posteriores problemas de Adam, embora não haja nenhuma evidência concreta que suporte qualquer das declarações.

Por volta de seus 12 anos, houve um claro ponto de inflexão no comportamento e saúde mental de Adam. Sua ansiedade social piorou, de forma que evitava engajar em interações e mesmo estabelecer contato visual; até seu modo de andar ficou muito mais rígido e desnaturado. Lanza não conseguia mais dormir, se concentrar ou aprender e vivia sob estresse.

Com a piora do quadro de saúde do filho, agora com 13 anos, seus pais o levaram para ver um psiquiatra, que os informou sobre os sintomas indicarem Síndrome de Asperger, um dos tipos do espectro de autismo, cujos mazelas costumam se exacerbarem durante as alterações hormonais decorrentes da puberdade.

Após analisarem e até aplicarem algumas soluções, Nancy e Peter decidiram que seria melhor para Adam, então com 14 anos, que continuasse seus estudos em casa.

Tempos depois, Adam foi levado para ver outros especialistas. Um deles o diagnosticou com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), denotando o estrito regramento de conduta que ele impunha a mãe, como não tocar em maçanetas de metal ou não usar saltos-altos pois “faziam muito barulho”. O mesmo doutor apontou que os pais estariam demasiadamente apreensivos com sua educação escolar, ao passo que não estavam suficientemente preocupados sobre “como acomodar as graves deficiências sociais de Adam de uma forma que lhe permitisse estar perto de seus colegas”.

A enfermeira que acompanhou o tratamento prescrito a Adam, envolvendo o uso de medicamentos específicos, reportou que ele os tomou por apenas três dias, até sentir-se enjoado e decidir que ele não seguiria o tratamento ou tomaria qualquer outro psicotrópico. Ele não aceitava as condições que o acometiam, e seus pais foram coniventes ao não insistir que aceitasse o tratamento ou as sessões de psicoterapia, sobretudo Nancy, que continuou, até o fim de sua vida, a acomodar o filho da maneira que ele preferisse — o que, a longo prazo, certamente contribuiu para o agravamento do estado mental de Adam.

A situação apenas piorou quando Adam decidiu cortar relações com seu pai e irmão (que havia se mudado para Nova Jérsei após se formar), informando sua mãe que não queria mais ter contato com ambos. Malgrado Peter também cedesse a muita das exigências de seu filho mais novo, o executivo lembra que ele ocasionalmente tentava tirar Adam de sua zona de conforto. Em razão disso, ele acha que o filho caçula percebeu que ele poderia exercer mais controle sobre a mãe que sobre o pai.

Em 2011, Nancy havia se tornado uma mera espectadora na vida de Adam, servindo apenas para prover-lhe os recursos necessários para que continuasse seu estilo de vida isolado e tentar, em vão, auxiliá-lo durante suas recorrentes crises de choro e ataques de pânico. Na verdade, à época, questiona-se se mãe e filho ainda se comunicavam verbalmente ou apenas por e-mails.

O quarto de Adam. Ele cobriu as janelas com sacos de lixo pois a claridade o incomodava.

No final do ano seguinte, Nancy, que secretamente planejava se mudar juntamente a Adam para Seattle, na esperança de que uma mudança de cenário fosse ajudar ambos, deu seu último suspiro enquanto dormia, antes de seu filho disparar quatro vezes contra a sua cabeça, a fazendo a primeira de suas 28 vítimas.

Os textos póstumos de Adam

Lanza tomou gosto pela escrita desde jovem, quando escrevia cartas para o Papai Noel, incluindo uma em que agradecia por pacotes de cartas de Pokémon e pedia que lhe fossem dados alguns mais.

No terceiro ano, escreveu em seu jornal sobre estar animado com o novo hamster adquirido pela família — o (provavelmente) falecido Skippy — e a viagem que fariam a sua cidade natal, Nova Hampshire.

Infelizmente, essas provaram ser um dos poucos textos positivos redigidos por Adam.

As anotações do jovem Lanza, reveladas pela polícia de Connecticut no documento final de investigação do crime, revelam que o garoto reclamava sobre vários aspectos de sua vida escolar, incluindo seus colegas, a suposta insalubridade das instalações, o curto tempo dos recreios e a incapacidade de se adaptar ao modelo de ensino dos professores.

Pensamentos de Adam sobre sua vida escolar.

Ademais, a bulimia de Adam, que posteriormente o levaria à anorexia — com 20 anos, ele possuía 1,83m de altura, enquanto seu peso se aproximava de 50kg —, já se manifestava num de seus textos, no qual elencou um rol de razões pelas quais ele deveria evitar comer para não engordar. No documento, as 35 alíneas referem-se às pessoas acima do peso ideal de maneira hostil; em suas palavras, “apenas pessoas magras são graciosas”. Mais tarde, um dos membros da Comissão de Sandy Hook (criada após o massacre para revisar e criar novas políticas públicas de segurança), Harold Schwartz reportou que a condição anoréxica de Adam poderia ter causado danos a seu sistema nervoso.

A lista de Adam para justificar sua subalimentação.

Talvez o texto mais emblemático das perspectivas sendo formadas pelo jovem Adam, “O Grande Livro da Vovó”, obra de 52 páginas produzida em coautoria com um colega, envolve trechos notoriamente mórbidos, especialmente para crianças cursando o quinto ano. Por exemplo, um dos capítulos do livro descreve o massacre promovido pela vovó no “Clube de Crianças Felizes da Vovó”.

Mais um presságio do que estaria por vir, outra personagem participante da história, Dora, a “Furiosa” (Berserker) declara como gosta de machucar pessoas, especialmente crianças.

“O Grande Livro da Vovó”, a perturbadora obra de Adam Lanza e um de seus colegas.

No sétimo ano, diversas redações de Adam passaram a incluir descrições perturbadoras de cenas violentas. Um de seus professores, que o retratou como alguém “inteligente, mas não normal, com problemas antissociais” afirmou se tratarem de obras tão viscerais que não poderiam ser compartilhadas. Eram sinais dos crescentes sentimentos de raiva, ódio e de seu (ao menos inconsciente) impulso assassino, conforme ponderou um relatório do Office of Child Advocate (Escritório de Advocacia da Criança).

Adam com 13 anos de idade.

Adam também demonstrou notório interesse por relacionamentos entre adultos e crianças. À medida que começou a passar mais tempo usando o computador, históricos de acesso e outros membros de fóruns questionados após o massacre indicaram que Lanza era, de fato, pedófilo. Corroborando essa tese, o início de um roteiro que nunca terminou de escrever, chamado “Lovebound” (“Laço/Elo de Amor”), contava a história de um relacionamento afetivo entre um garoto de 10 anos e um homem de 30.

Uma mulher (não identificada) que interagiu com Adam em diversas ocasiões em fóruns o descreveu como “a pessoa mais esquisita online”. Um dos pensamentos que Lanza compartilhou com a moça foram suas opiniões quanto à pedofilia, declarando que, por um lado, ele odiava pedófilos e que eles eram uma ameaça às crianças; em contrapartida, também teria descrito os possíveis benefícios que poderiam decorrer de relações sexuais entre adultos e o público infantil.

Stephen J. Sedensky III, procurador (advogado de ente federado) de Danbury, Connecticut, num relatório de 2013, constatou que Lanza possuía “materiais sobre o tema da pedofilia e defesa dos direitos dos pedófilos”; contudo, não foi encontrado nenhum arquivo contendo pornografia infantil.

No documento mais detalhado que escreveu sobre si, intitulado “Me” (“Eu”), Adam desembaraçou as minúcias de seu “desprezo pela humanidade”, na qual estava incluso um trecho em que argumentara a favor da moralidade (embora, neste caso, o termo mais adequado seja eticidade) do suicídio, assim como ponderações de qual seria a diferença entre assassinar um ser humano e matar um animal.

O legado de que provavelmente mais se orgulhou, vale dizer, o que Adam consideraria sua Magnum Oppus, foi sua planilha detalhada sobre assassinos em massa e seus “feitos”.

A obsessão com mass murderers

Lanza, durante sua adolescência, foi gradativamente substituindo suas relações pessoais pelas virtuais, passando a frequentar, nos momentos em que não estava jogando videogame, diversos chats e fóruns online, nos quais acabou desenvolvendo uma paixão preocupante por assassinatos, que manteve omissa daqueles com quem era próximo — leia-se, pai e mãe — até a sua eventual morte.

Desde 2006, Adam, à época com 14 anos de idade, iniciou a pesquisar extensivamente sobre as minúcias de tiroteios em massa ocorridos até então. Em particular, se interessava pelo Massacre de Columbine. Segundo artigo do Daily Mail, que detalhou alguns dos documentos encontrados na casa dos Lanza, a lista possuía 17 categorias, incluindo o número de pessoas mortas, as armas usadas, a data, a hora e o local dos assassinatos e o que aconteceu com o assassino.

Em 2009, Adam decidiu a compartilhar sua pesquisa por meio da edição de páginas na Wikipedia referentes a assassinos em massa, corrigindo informações errôneas ou adicionando dados omissos.

Em uma sala de chat, Lanza declarou ser um entusiasta de assassinos em massa e suas histórias. “Eu venho pesquisando sobre esse assunto desde 2006 e comecei a compilar uma lista formal no início de 2010”, informou no fórum.

A planilha incluía massacres datando de 1786 a 2010. O último registro era de Derrick Bird, que matou 12 pessoas em Cumbria, na Inglaterra.

Em algum ponto, Adam perdeu o entusiasmo que antes o motivava a continuar pesquisando sobre o tema e atualizando sua lista. Em junho de 2012, ao explicar em um chat o porquê de esse ser o caso, Adam afirmou que “não se importava mais com nada”. “Pra mim chega disso tudo”, Lanza adicionou e, de fato, ele provaria que falava a verdade.

Presságio do tiroteio

No ano de 2008, quatro anos antes do massacre, as forças policiais já haviam sido avisadas de possíveis indícios homicidas de Adam, conforme foi atestado por documentos revelados pelo FBI (Federal Bureau of Investigation ou Departamento Federal de Investigação) em 2017.

Um arquivo datado em 26 de dezembro de 2012 (12 dias antes do tiroteio em massa) evidenciou que um homem, preocupado após ouvir uma conversa entre Adam e sua mãe, na qual ele supostamente teria alegado ter um rifle de assalto e estar planejando matar sua mãe e crianças na escola primária Sandy Hook, decidiu reportar o que presenciara à polícia; contudo, após uma breve investigação, o departamento o informou que, devido às armas serem de propriedade de Nancy Lanza e não haver indícios substanciais do planejamento de um crime, não havia nada que poderiam fazer.

De fato, a polícia não possuía jurisdição para prosseguir com as investigações ou tomar quaisquer outras medidas restritivas ou de ordem similar, considerando que o único embasamento era um testemunho cuja veracidade não poderia ser comprovada; todavia, resta a dúvida de esta ter sido uma das últimas oportunidades de prevenir o massacre que aconteceria quatro anos depois.

O massacre

No dia 11 de dezembro de 2012, Nancy decidiu sair para aproveitar uns dias de férias, tentando persuadir Adam a acompanhá-la e ter uma folga da constante jogatina de videogames e uso do computador.

Adam se recusou, e sua mãe decidiu viajar sozinha.

Ao retornar para casa após três dias fora, Nancy Lanza não poderia (ou será que sim?) ter imaginado o destino que lhe aguardava.

Adam usou os dias isolado para preparar o massacre, premeditando metodicamente o curso de ação que tomaria e os equipamentos a serem utilizados no dia 14 daquele mês. Não se tem certeza se ele já vinha planejando o evento previamente ou se simplesmente viu o momento como uma oportunidade ímpar para concretizar o ato a que idolatrava. Independentemente de qual seja o caso, na manhã do décimo quarto dia do último mês do ano de 2012, Adam Lanza deu início à quarta maior chacina na história dos Estados Unidos.

Por volta das 9h da manhã, Adam entrou no quarto de sua mãe, ainda adormecida, e disparou quatro vezes, acertando todos os tiros na cabeça de Nancy Lanza, que morreu na hora, aos 52 anos.

Munido de quatro armas de fogo — um rifle, duas pistolas e uma espingarda —, clipes de munição extra e vestindo roupas pretas, protetores de ouvido amarelos, óculos escuros e um colete utilitário verde oliva, Adam pegou o carro de sua mãe e dirigiu-se à escola primária Sandy Hook.

As armas do crime. A espingarda foi o único armamento deixado no carro. Fotos: Departamento de Polícia de Connecticut

Adam adentrou o colégio ao quebrar o painel de vidro ao lado das portas de entrada, e iniciou o tiroteio, destinando a maior parte das balas a duas salas em que estudavam alunos do primeiro ano, todos entre 6 e 7 anos de idade, totalizando o assassinato de 20 crianças, das quais apenas uma resistiu por tempo suficiente para ser levada à emergência, mas acabou morrendo no hospital.

Uma das crianças sobreviventes, que se escondeu no banheiro, contou aos policiais que ouviu um menino gritar “Me ajude! Eu não quero estar aqui!”, seguido do que só pode ser descrito como um cinismo mórbido: “Bem, você está aqui”, seguido do que a menina descreveu como sons de “marteladas”.

Oficiais que investigaram o perímetro do local mais tarde informariam que algumas das crianças mortas estavam empilhadas no banheiro de uma das salas de aula como “sardinhas enlatadas”.

Além das crianças, Lanza também assassinou 6 adultos que prestavam serviços à escola. A maioria foi baleada enquanto tentava proteger os pequeninos.

Ao total, cerca de 154 disparos foram feitos pelo rifle de Lanza em um período inferior a 5 minutos, demonstrando o preparo advindo das várias sessões de tiro que frequentou juntamente à mãe.

Por fim, ao perceber a chegada das forças policiais, Adam Lanza calmamente se dirigiu a outra sala de aula vazia, engatilhou uma de suas pistolas e disparou contra a parte traseira inferior de sua cabeça, contabilizando sua vigésima oitava vítima da última hora e, concomitantemente, dando fim ao massacre e à sua vida.

As vítimas

O massacre de Sandy Hook tornou vítimas “seis trabalhadores escolares dedicados e vinte lindas crianças”, disse o ex-presidente estadunidense Barack Obama em pronunciamento feito no aniversário de um ano da chacina, enquanto batalhava a emergência de lágrimas. Em conversa com Oprah Winfrey, o primeiro presidente negro da história dos EUA descreveu o tiroteio na escola primária em Newtown como o momento que o causou mais tristeza e raiva durante sua presidência.

Além das pessoas assassinadas na escola, costuma-se incluir, a depender da fonte, o homicídio de Nancy Lanza, mãe de Adam, que foi morta em seu quarto, e daquele que perpetrou o ato, que encerrou sua vida por suicídio, totalizando 28 pessoas mortas por vínculo direto ou indireto ao evento fatídico.

Os funcionários da escola mortos foram: Rachel D’Avino, 29, terapeuta de comportamento; Dawn Hochsprung, 47, diretora; Anne Marie Murphy, 52, professora de educação especial; Lauren Rousseau, 30, professora; Mary Sherlach, 56, psicóloga escolar; e Victoria Leigh Soto, 27, professora.

No dia 15 de dezembro de 2012, a população local e familiares das vítimas se juntaram para compartilhar o luto pelas vítimas do massacre. Foto: Michael Appleton, The New York Times.

Vale destacar, sem a intenção de pormenorizar os esforços das outras vítimas, a atuação de Marie Murphy, que morreu segurando o pequeno Dylan Hockey, um estudante com necessidades especiais (que, infelizmente, também não sobreviveu), em seus braços, e de Soto, que confrontou Lanza e tentou convencê-lo de que as crianças estavam escondidas em um local diferente, conseguiu tempo para que algumas fugissem da sala de aula em que estavam. Quando Lanza iniciou o tiroteio contra a turma de Soto, a professora colocou-se entre o atirador e seus alunos, sendo baleada múltiplas vezes e morta no processo.

Respectivamente, Anne Marie Murphy (52) e Victoria Leigh Soto (27).

Ademais, é oportuno mencionar que Sherlach, a psicóloga da instituição, foi a presidente da Equipe de Planejamento e Colocação de Adam no período em que estudou em Sandy Hook. Em um dos documentos de Nancy Lanza encontrado nas investigações em sua casa, a mãe elogiou o trabalho de Sherlach, que teria sido instrumental na estabilização dos níveis de stress do jovem Adam; entretanto, o menino não transpareceu gratidão pelo trabalho da psicóloga, tendo a feito a segunda vítima morta no colégio.

Mary Sherlach (56).

Por sua vez, os alunos assassinados foram: Charlotte Bacon, 6; Daniel Barden, 7; Olivia Engel, 6; Josephine Gay, 7; Dylan Hockley, 6; Madeleine Hsu, 6; Catherine Hubbard, 6; Chase Kowalski, 7 anos; Jesse Lewis, 6; Ana Márquez-Greene, 6 anos; James Mattioli, 6; Grace McDonnell, 7; Emilie Parker, 6; Jack Pinto, 6; Noah Pozner, 6; Caroline Previdi, 6; Jessica Rekos, 6; Avielle Richman, 6; Benjamin Wheeler, 6; e Allison Wyatt, 6.

27 anjos de madeira assentados em um quintal na rua da escola Sandy Hook, em memória das vítimas do massacre.

Aqui, é necessário enfatizar a atuação crucial de Jesse Lewis, de apenas 6 anos. No momento que Lanza adentrou sua sala de aula, há relatos de que, por um breve momento, a munição da arma do atirador ficou emperrada, ocasião em que Lewis vislumbrou uma chance de escape — mas priorizou a vida de seus colegas. O estudante do primeiro ano, gritando, insistiu que as outras crianças corressem para um lugar seguro, e vários assim fizeram. Infelizmente, Jesse não teve a mesma sorte e, enquanto olhava diretamente para Lanza, foi fatalmente baleado. No fim das contas, Jesse teve o trágico destino que normalmente é reservado aos heróis da vida real, que emergem das situações mais desesperadoras para ajudar outrem, mesmo que isso possa custar suas próprias vidas.  

Para conhecer mais sobre as outras vítimas e o legado que deixaram, remetemos o leitor para outro artigo da Crimes Reais: “As pequenas vítimas de um dos massacres mais mortais dos Estados Unidos”, escrito por uma das melhores redatoras do site, Eduarda Radke.

Motivações (ou falta destas)

Até hoje, não pôde ser delimitada uma razão concisa para explicar o que transcorreu no dia 14 de dezembro na escola Sandy Hook. O massacre, segundo as informações coletadas durante extensas investigações sobre o passado de Adam, foi o produto de uma coletânea de fatores.

O relatório final do Escritório de Advocacia da Criança chegou à seguinte conclusão:

“Não houve necessariamente um ponto de inflexão que levou Lanza a cometer o tiroteio de Sandy Hook. Em vez disso, houve uma cascata de eventos, muitos autoimpostos, que incluíam: perda da escola; ausência de trabalho; interrupção do relacionamento com seu único amigo; praticamente nenhum contato pessoal com a família; isolamento praticamente total e crescente; medo de perder sua casa e de uma mudança em seu relacionamento com a Sra. Lanza, sua única cuidadora e conexão; agravamento do TOC; depressão e ansiedade; profunda e possivelmente agravamento da anorexia; e uma crescente obsessão com assassinatos em massa ocorrendo na ausência total de qualquer envolvimento com o mundo exterior. Adam vivia gradativamente em um universo alternativo em que ruminações sobre fuzilamentos em massa eram sua preocupação central”.

Independentemente das razões, é certo afirmar que não há motivo idôneo que justifique o assassinato de 27 pessoas; vale dizer, não há o que explique a perda repentina desses seres humanos.

É normal que nos perguntemos o porquê de um ato tão bárbaro, mesmo que não haja resposta que apazigue o coração daqueles que permanecem e tem de lidar com as perdas. É da natureza do ser humano buscar sentido onde não há, na busca infindável e significado que guia nossas vidas.

Contudo, talvez seja melhor, especialmente para aqueles que não possuíam laços próximos com as vítimas (e, mais ainda para pais e mães de filhos com quadros psiquiátricos e comportamentais semelhantes ao do criminoso analisado), não pensar no porquê, mas em como; como, no sentido do que podemos aprender com a reflexão sobre este caso para que situações de tal sorte não mantenham-se recorrentes no futuro.

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