O Açougueiro de Rostov: Andrei Chikatilo, o serial killer da URSS


Dentre os anos de 1978 e 1992, a extinta União Soviética foi atormentada por uma série de assassinatos: crianças de ambos os sexos e jovens mulheres apareciam nas florestas com seus olhos, línguas e genitais arrancadas e os corpos completamente estripados. A demora em capturar o assassino deu-se devido a recusa na crença de que poderia existir um assassino em série nas terras soviéticas, tendo em vista que o fenômeno era considerado “coisa de capitalista”. 

Reprodução: Mortis Operandi

Andrei Romanovich Chikatilo nasceu no dia 16 de Outubro de 1936, em uma vila rural na Ucrânia, que integrava, na época, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Durante sua infância, a Ucrânia passou por uma dificuldade generalizada devido às políticas stalinistas, ocasionando grande fome e dizimando grande parte da população. Os efeitos da grande fome ainda eram sentidos durante sua infância, que ficou marcada por tais acontecimentos.

A mãe de Andrei se demonstrava uma mulher extremamente desequilibrada, atormentando as crianças com histórias sobre seu suposto irmão, Stephan, que teria sido vítima de canibalismo por aldeãos vizinhos. Não há registros da existência de nenhum Stephan Chikatilo, mas a história era suficiente para impressionar o pequeno Andrei. 

A situação do país piorou após a Segunda Guerra Mundial, que ocasionou diversos bombardeios na Ucrânia. O pai de Andrei, soldado russo, foi capturado durante a guerra e acusado de traição, fato este, que causaria uma eterna angústia no filho, sendo ele alvo de bullying na escola em decorrência “da covardia” do pai e por ser considerado afeminado. As crianças o chamavam de “ganso” devido a seu pescoço longo e postura estranha.

Reprodução: Reddit

Externamente a isso, Andrei sofria de uma condição denominada hidrocefalia, que consistia em um acúmulo de água no cérebro, fato que gerava incontinência urinária e dificuldades de ereção que acompanharam Chikatilo por toda a vida. Além disso, ele possuía um alto grau de miopia que o deixava quase cego. Como resultado de todas essas situações, tornou-se um menino demasiadamente tímido e introspectivo cujas poucas experiências sexuais na adolescência se demonstraram vexatórias. Andrei carregava consigo a crença de que ao nascer teria sido castrado e cegado, ideias que vieram a abastecer seus mórbidos pensamentos e o levariam a matança desarrazoada. 

Muito quieto e com poucos amigos, Chikatilo parou de sofrer bullying na adolescência após se tornar um homem alto e imponente. Apesar de sua timidez, ele se demonstrava extremamente inteligente e, aos 16 anos, era o diretor do jornal escolar e do escritório de informação política. Sua vida social, no entanto, era completamente inexistente, sobretudo no que se referia às mulheres. 

Reprodução: DeviantArt

Quando adulto não conseguiu entrar na Universidade Estadual de Moscou, passou, portanto, um tempo no Serviço Nacional e, posteriormente, mudou-se para Rodionovo-Nesvetayevsky, uma cidade próxima a Rostov, em 1960, e se tornou um engenheiro de telefonia. Sua irmã mudou-se junto a ele e, possuindo conhecimento de seu insucesso com as mulheres, apresentou-lhe uma garota local com quem o serial killer se casou em 1963. Apesar de sua dificuldade de ereção e das relações sexuais não convencionais, o casal teve 2 filhos: Lyudmilla e Yuri e, aparentemente, levava a vida de uma família comum. 

Em certo momento, Chikatilo tornou-se professor, mas em virtude de sua grande timidez, tinha enormes dificuldades para controlar os alunos. Somado a isso, uma série de incidentes relacionados a abuso sexual com os estudantes o forçava a passar de escola em escola, até se firmar, durante certo tempo, em uma escola de Shakhty. 

Reprodução: Film Daily

Também perseguido por seus colegas de trabalho por seu jeito estranho, passou a andar com uma faca e, em 1978, não mais conseguindo controlar seus desejos sombrios, fez sua primeira vítima: Lena Zakotnova, de 9 anos. Ela esperava sua condução em um ponto de ônibus, quando um senhor, muito bem vestido, aproximou-se e ofereceu a ela chicletes importados que supostamente estavam em sua casa. A menina então acompanhou o senhor até uma cabana no meio da floresta e assim que entraram no local, Chikatilo atacou a menina, despindo-a e sufocando-a com o antebraço. Após perder a consciência o maníaco a acariciou e tentou estuprá-la, mas devido a sua impotência não obteve sucesso e, dominado pela raiva, esfaqueou a criança três vezes no estômago, saiu do barracão e jogou o corpo dela em um rio. 

Lena Zakotnova / Reprodução: Tapatalk

No dia seguinte, o corpo de uma criança vestindo um casaco vermelho foi encontrado boiando no rio, sendo o fato noticiado em todos os jornais. Uma testemunha havia visto uma criança de casaco vermelho deixando um ponto de ônibus junto a um senhor na mesma tarde do sumiço da menina encontrada. Assim, compareceu a polícia e contou tudo que tinha visto, sendo feito um retrato falado do suspeito espalhado por toda a cidade. 

Todo o modus operandi do crime fez a polícia se lembrar de um estuprador conhecido, de nome Alexander Kravchenko, que estava em livramento condicional, cuja vítima foi uma menina de 17 anos, em 1970. Apesar de não existir nenhuma semelhança entre Kravchenko e o retrato falado, a polícia estava assídua para resolver rapidamente o caso e fez com que a esposa do suspeito prestasse depoimento contra ele. Alexander, que até então negava a prática do crime, assustado, acabou confessando um fato que nem ao menos cometera. 

Alexander Kravchenko / Reprodução: virgulistas

Contudo, o diretor da escola onde Andrei Chikatilo lecionava, assustou-se com a semelhança entre o retrato falado e o professor. Dessa forma, resolveu investigar a ficha de Chikatilo, e este demonstrou-se acima de qualquer suspeita: havia chegado na cidade de Shakhty naquele ano, diplomado em artes liberais, em literatura russa, engenharia e Marxismo-Leninismo; era casado, pai de família, considerado um bom vizinho, membro do partido comunista e professor. 

Mesmo diante disso, o diretor resolveu procurar a polícia e informar sobre a semelhança de Chikatilo e o retrato falado. As investigações seguiram e os policiais acabaram chegando à cabana do professor escondida, no meio da floresta, próxima a uma margem do rio onde o corpo da criança tinha sido encontrado. Imediatamente após tomarem conhecimento do dono da cabana, Andrei Chikatilo foi chamado para depor, mas após sua esposa confirmar que ele estava em casa com ela durante todo o tempo, no dia que a menina foi assassinada, o professor foi descartado como suspeito, apesar das evidências. 

Reprodução: Domínio Público

Kravchenko foi condenado a prisão perpétua, mas a família da menina assassinada recorreu e conseguiu a pena de morte. Alexander Kravchenko foi fuzilado em 1983. 

Nos três anos seguintes não houveram registros de assassinatos de autoria de Andrei Chikatilo. Ele acabou sendo demitido da escola onde trabalhava e conseguiu um emprego em uma fábrica na cidade de Rostov, o que possibilitou à ele diversas viagens de trem, onde ele escolhia suas vítimas. 

Reprodução: Amino

Aos 42 anos, Andrei escolheu sua próxima vítima: Larisa Tkachenko, uma adolescente de 17 anos que estava matando aula na cidade de Rostov. Convencida a fazer sexo com o assassino, a menina foi para o bosque junto dele, mas quando não conseguiram realizar o ato em decorrência do problema de ereção de Chikatilo, a adolescente deu risada da situação ocasionando uma intensa onda de fúria em Andrei. Prontamente ele a estrangulou, roeu sua garganta, braços e seios arrancando seus mamilos com os dentes e por fim empalou-a. Em seguida, Chikatilo pegou sua maleta e seguiu viagem como uma pessoa comum. 

Larisa Tkachenko / Reprodução: Domínio Público

Assim, Chikatilo definiu seu modus operandi, os corpos estripados de crianças de ambos os sexos e jovens mulheres eram constantemente encontrados nos bosques, próximos às estações de trens, com os olhos mutilados, sendo esta a assinatura de seus crimes. Em alguns casos, posteriormente, admitiu ter arrancado narizes, seios e órgãos genitais e os comido. 

Local onde foi encontrado uma das vítimas de Chikatilo / Reprodução: Getty Images

Em junho de 1982, o serial killer conseguiu atrair a jovem Lyuba Biryuk, de apenas 12 anos, para dentro de uma floresta onde ela foi morta e teve seus olhos arrancados. Seu corpo foi encontrado apenas um ano depois. No ano de 1983, Chikatilo fez mais três vítimas, incluindo o menino Oleg Podzhidaev, de 9 anos, cujo corpo nunca foi encontrado, mas o serial killer admitiu que o matou e o castrou, levando seus genitais consigo, prática frequente em seus crimes. 

Lyuba Biryuk / Reprodução: Domínio Público

Mais 15 pessoas foram mortas pelo Açougueiro de Rostov dentre os meses de Janeiro e Setembro de 1984. A polícia estava alarmada com tantos corpos, mas suspeitava que os assassinatos eram obra de duas pessoas, uma vez que serial killers não eram comuns na extinta URSS e, portanto, eram considerados “coisa de capitalista”. No entanto, chegou um momento em que o dano ocasionado nos olhos das vítimas, a assinatura de Andrei Chikatilo, finalmente fez com que os policiais admitissem a possibilidade de apenas uma pessoa estar cometendo aqueles brutais assassinatos. 

A fama dos casos rapidamente se espalhou, causando um temor generalizado na população, então, os policiais uniram esforços com o Major Mikhail Fetisov e seu time de investigação e, finalmente, veio a certeza de que apenas uma pessoa estava matando aquela quantidade extraordinária de pessoas. 

Reprodução: Domínio Público

O caso foi oficialmente denominado como “Lesopolosa”, ou “Os assassinatos do estripador da floresta” e ficou sob comando de Viktor Burakov. Os policiais não acreditavam que a pessoa que estava cometendo tais atos poderia ser mentalmente saudável, portanto, suas primeiras investigações foram dirigidas à hospitais e arquivos de polícia, mas nada foi encontrado. A única pista concreta que existia era a amostra de sêmen do assassino que foi recuperada e, após testes, estabeleceram que o tipo sanguíneo do assassino era “AB”. 

Todos os possíveis suspeitos do caso doaram uma amostra de sangue, incluindo Chikatilo. No entanto, em casos raros, os tipos sanguíneos definidos pelas amostras de sangue e pelo sêmen podem não combinar, e foi exatamente o que ocorrera. Não houve compatibilidade entre a amostra retirada do sêmen do assassino com a amostra de sangue doada por Chikatilo, fazendo com que fosse liberado imediatamente, não sendo, nem ao menos, considerado suspeito.

Com o desespero da polícia para desvendar o caso, vez que, cada dia o número de corpos encontrados aumentava, os policiais passaram a buscar alguém que desenvolvesse um perfil do assassino a fim de ajudar nas investigações. Muitos se negaram em decorrência da falta de provas, mas, finalmente o Dr. Aleksandr Bukhanovsky concordou, e forneceu um perfil aos investigadores: o assassino sofria de distúrbios sexuais, sendo considerado um necrófilo; sua altura aproximada era de 1,67m; idade entre 25 e 50 anos; calçava nº 41 ou mais; provavelmente sofreu alguma forma de violência sexual inadequada e brutalizava suas vítimas para compensar o fato.

Dr. Aleksandr Bukhanovsky / Reprodução: Muderpedia

De posse dessas informações, sem saber muito bem por onde começar, a operação da polícia concentrou-se em efetuar vigilâncias nas estações de ônibus e trens, se atentando para toda e qualquer pessoa que demonstrasse comportamento suspeito próximo a crianças. Em uma dessas vigilâncias avistaram Chikatilo e o reconheceram pelo seu jeito estranho e peculiar, por isso resolveram segui-lo. A vigília durou determinado tempo, pois o serial killer entrou em vários ônibus e frequentou diversas estações de trens antes de retornar à estação de Rostov. Notaram que durante todo percurso tentou se aproximar de diversas mulheres e, no momento em que uma dessas aproximações acabou mal sucedida, com a mulher gritando, os policiais se aproximaram e pediram os documentos do homem. 

Diante da abordagem Andrei Chikatilo mostrou-se nervoso, mas, com relutância, abriu sua maleta. Os policiais se depararam com cordas, vaselina e uma faca extremamente afiada. Imediatamente o assassino foi levado sob custódia, porém, mais uma vez, não conseguiram ligar Andrei aos crimes que vinham sendo cometidos e acabou sendo liberado. 

Reprodução: The sun

Chikatilo seguiu com os assassinatos até que foi preso definitivamente em 1992, quando tentava abordar mais uma criança. Durante buscas em sua residência os policiais encontraram 23 facas diferentes, um machado e um par de sapatos, estes que combinavam com a pegada encontrada ao lado do corpo de uma das vítimas. A princípio, Andrei alegou ser inocente, mas, após conversas com o psicólogo forense, Aleksandr Buchanovsky, confessou a morte de 53 vítimas, de forma detalhada. Ele descreveu locais, as roupas das vítimas e o momento dos crimes. Além disso, descreveu todos os métodos que utilizava para os assassinatos, desde a sua busca pelas vítimas a sua expertise com as facas, descrevendo a si mesmo como “um lobo enlouquecido”. 

Reprodução: Domínio Público

Contou que golpeava suas vítimas, prendendo-as contra o chão e arrancava suas línguas com mordidas para evitar que gritassem. Posteriormente, as violava e mutilava. A primeira mutilação a que as submetia era nos olhos: ele os arrancava com a faca, de modo que não pudesse ser observado na sua performance sexual. Depois de satisfeito, desmembrava-as ainda vivas, infligindo nelas entre 40 e 50 feridas fundas. Muitas vezes arrancava o órgão sexual de suas vítimas usando a própria boca e em outras oportunidades, enchia seu estômago com terra e depois as descartava. Fervia e comia os testículos e mamilos arrancados; arrancava seus narizes e dedos. Muitas das crianças que matou foram mutiladas ainda vivas e diversas vítimas do serial killer eram encontradas tão severamente mutiladas, que se tornava impossível saber se eram meninos ou meninas sem a realização de exames forenses.

Algumas das vítimas de Chikatilo / Domínio Público

O julgamento do serial killer de Rostov teve início em 14 de abril de 1992, onde estiveram presentes familiares das vítimas e a imprensa. Durante todo o tempo Andrei Chikatilo foi mantido em uma jaula de metal, de onde descreveu os horrores de seus assassinatos, levando a inúmeros desmaios naqueles que assistiam ao julgamento. 

Chikatilo foi considerado em seu perfeito juízo mental, com base nos depoimentos dos psiquiatras que ficaram responsáveis por sua análise. Assim, em 15 de outubro de 1992, Andrei Romanovich Chikatilo foi declarado culpado de 52 assassinatos e condenado à morte, tendo escapado de um de seus crimes por falta de provas. Em 14 de Fevereiro de 1994, foi fuzilado com um tiro na nuca.

A gravidade dos seus crimes perpassou os anos, sendo até hoje, lembrado como um dos mais brutais serial killers já estudados.


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