O brutal caso de Aída Curí


Nascida em 15 de dezembro de 1939, em Belo Horizonte, Aída Jacob Curi era a terceira dos cinco filhos de Gattas Assad Curi e Jamila Jacob Curi, imigrantes sírios. Aos quatros anos, já orfã de pai, Aída se mudou com seus irmãos e sua mãe para Goiás e, posteriormente, para o Rio de Janeiro. No Rio, sua mãe a matriculou em uma escola de freiras destinada a meninas orfãs. 

Apesar de receber visitas da mãe, Aída não tinha contato com o mundo exterior, tornando-se, uma menina casta, inocente e religiosa. Passados 12 anos no Educandário Gonçalves de Araújo, ela, então com 18 anos, começou a trabalhar na loja de seu irmão e a fazer cursos de datilografia, inglês e português, em Copacabana. 

Aída Curi
Foto: Reprodução / Jornal O Globo

Na noite de 14 de julho de 1958, após sua aula no curso de datilografia, na Escola Remington, em copacabana, Aída saiu em companhia de sua amiga, Ione Arruda Gomes, em direção ao ponto de ônibus. À espera de sua condução, as duas meninas foram abordadas por Ronaldo Guilherme de Souza (19 anos) e Cássio Murilo Ferreira (17 anos). Os rapazes, que costumavam se reunir próximo à rua do curso, pertenciam ao movimento Juventude Transviada ( jovens rebeldes dos anos 50).  

Como uma forma de chamar a atenção das meninas, Ronaldo deixa uma chave cair no chão e começa um diálogo ao perguntar se a mesma pertencia a uma delas. Ao receber uma resposta ríspida de Aída, os jovens acabam ficando irritados e tomam de sua mão os seus pertences, entre os quais estava o dinheiro para a sua condução. De acordo com a versão publicada por sua família, um dos rapazes dizia que só lhe devolveria os objetos se ela lhe desse um beijo. Após receber uma resposta negativa, os garotos fugiram para dentro de um prédio. 

Ronaldo Guilherme
Foto: Reprodução / Popular Tragedy

Na tentativa de recuperar suas coisas, Aída foi atrás dos dois garotos e, ao entrar na recepção do prédio no qual eles haviam entrado, foi puxada à força para dentro de um elevador. Segundo relatos constantes nos autos, Aída teria sido violentada antes de ser levada para o 12° andar. 

De acordo com as notícias do jornal “O Globo” do dia 15 de julho, foi dentro do apartamento 1201- ainda em construção – que ela continuou a se defender dos ataques de dois ou três agressores, quando tropeçou nas peças de madeira. Devido à sua queda e ao estresse corporal causado pela luta para se defender, Aída teria perdido os sentidos. Seu corpo foi transportado até o terraço através de uma escada em formato de caracol, sendo colocado sobre o peitoril e lançado ao chão da Avenida Atlântica. 

Um fator curioso que veio a indagar as pessoas da época é que, logo após seu corpo chegar ao solo, foi visto os pertences anteriormente roubados da vítima no ponto de ônibus foram vistos ao lado de seu corpo. Dentro da bolsa, estava um lenço com sangue, de modo que levava a crer, que as marcas em seu corpo eram devida  a sua queda.

Foto: Reprodução / Copacabana

Uma outra versão dos fatos, trazida nas teses defensivas, era de que Aída foi paquerada por alguns rapazes na rua, mas que em momento algum houve a retirada de objetos dela, e sim, que ela havia sido convidada para ver a linda vista do terraço do Edifício Rio Nobre. Entre os acusados, estavam Ronaldo, Cássio e Antônio João de Souza, porteiro do prédio e tio de Cássio. Ele teria subido e ficado escondido atrás de uma caixa d´água observando todo o ocorrido. Eles confessaram que começaram a importuná-la, tentando tirar suas roupas e que Aída, atônica, havia se jogado do terraço. 

 No dia seguinte ao crime, o cadáver foi submetido a análises com o intuito de verificar se havia ocorrido violação sexual. Em 1° de agosto, o laudo concluiu que não havia qualquer vestígio de espermas na vítima e que Aída morreu virgem. A defesa tentou arrebatar a honra e a moral dela, tendo alegado que havia entorpecentes no caso, pois, perto do local do crime, existiam bocas de fumo. 

Antônio João de Souza
Foto: Reprodução / Rede Globo

Teria sido um caso de suicídio, se a imprensa não tivesse se interessado e pressionado a Polícia e a Perícia Criminal para uma melhor investigação. Dentre tantas dúvidas, foi questionada a razão da perícia ter sido contatada somente a três horas após o crime. Essa suposição levou à hipótese de que o corpo e a cena do crime podiam ter sofrido alterações, com o propósito de despistar a polícia e convencê-los de que a única versão do crime era o de suicídio. 

Entretanto, segundo o perito Seraphim da Silva Pimentel, desde o início, a Perícia Criminal descartou a hipótese de um suicídio. Após observar o corpo, foi verificado que a vítima havia sido brutalmente ferida, inclusive com as roupas rasgadas, marcas e contusões em seu corpo provocadas por um objeto cortante ( foi recolhido durante as investigações um anel com efígie de São Jorge usado por um dos acusados), ferimentos causados por um soco inglês e ferimentos profundos nos seios, tendo sido provocados por dentes ou unhas. O trabalho pericial também foi  responsável pela prisão de Antônio. A família da vítima relata que, mais tarde, Seraphim foi afastado do caso e substituído por alguém ligado à família de um dos acusados. 

 “escoriações e equimoses provocadas por unhadas e socos. No peito, no lado esquerdo, aparecem sinais de profundas unhadas. Arranhões nas coxas, ventre, pescoço e equimoses no abdômen. Houve ruptura interna do lábio superior devido a um soco. Tentativas de estrangulamento. Sinais de bofetão no queixo. Marcas nos braços, antebraços, punhos e dorso das mãos (significando ‘ferimentos de defesa’). Algumas marcas no tórax que podiam ser conseqüência de mordida. Aída, desfalecida, foi atirada, e parte das escoriações foram produzidas por atrito do corpo nas arestas e bordas do parapeito do terraço”

A justiça decretou a prisão preventiva dos três acusados e, para tentar esclarecer as dúvidas que ainda surgiram acerca do caso, foi realizada uma reconstituição do crime, para qual foi necessária uma grande escolta policial, uma vez que houve uma grande comoção social com intenções de linchamento aos acusados. Os jovens e o porteiro foram denunciados por homicídio doloso, tentativa de estupro e atentado violento ao pudor. 

Reconstituição
Foto: Reprodução / Justificando

No entanto, em fevereiro de 1959, houve uma reviravolta no caso. Ronaldo Guilherme foi considerado inocente de todas as acusações. Em uma entrevista a Rádio Continental, o Juiz Souza Neto se pronunciou : “Está provado no processo que Ronaldo foi com Aída ao terraço do Edifício Nobre para um ligeiro romance com pleno conhecimento de Aída. Lá no terraço houve uma divergência entre os dois, porque Aída não queria ir até o fim do romance, desejava, como já disse na sentença de impronúncia, limitar-se aos prefácios do amor, enquanto Ronaldo desejava ter com ela uma plena conjunção carnal. Ronaldo se aborreceu, ficou decepcionado e deu um ligeiro tapa em Aída (…)”.  Ainda de acordo com ele, Ronaldo teria se afastado do prédio às 20h15, conforme provas incontroversas, não podendo, assim, ter participado do triste acontecimento. 

Em um primeiro momento, Ronaldo e Antônio conseguiram ser inocentados do caso e o júri condenou somente Cássio Murilo que, por ser menor de idade, foi absolvido. Após um terceiro julgamento, Ronaldo foi condenado e, após cumprir sua pena, se tornou um empresário muito bem sucedido. Cássio seguiu carreira militar, mas foi assassinado em 1978. E o porteiro Antônio foi absolvido em um segundo julgamento, não aparecendo ao terceiro e desaparecendo para sempre, sendo um mistério até os dias de hoje. 

Cássio Murilo
Foto: Reprodução / Acervo O Globo

Foto: Reprodução / Acervo O Globo


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