Atentados de Christchurch


Em 15 de Março de 2019, sexta-feira, na cidade de Christchurch, Nova Zelândia, várias pessoas se reuniam na mesquita Al Noor e no Centro Islâmico Linwood para a tradicional oração do meio-dia quando um atirador, fortemente armado, entrou no local e cometeu o pior atentado a tiros da história do país.

A Nova Zelandia é considerada um dos países mais seguros e tolerantes, com baixíssimos índices de violência armada, sendo, inclusive, nomeada como o segundo país mais seguro do mundo, de acordo com o Global Peace Index, no mesmo ano do ataque. Raramente o país era associado a casos de extremismos, mas, a partir de 2015, foi constatado um aumento das taxas de extrema direita fundamentalista ao redor do globo e a Nova Zelândia não escapou das estatísticas.

Os ataques de 15 de Março foram conduzidos por uma única pessoa que portava armas semiautomáticas. Primeiramente, o atirador se dirigiu até a mesquita de Al Noor e iniciou os disparos contra os fiéis. Estima-se que, durante o ocorrido, aproximadamente 190 pessoas, em sua maioria homens, estavam no local.

Os primeiros 17 minutos do ataque foram transmitidos pelo atirador, em uma live no Facebook, através de uma câmera acoplada em seu capacete, tendo inicio no momento em que ele se dirigia à mesquita e terminando com sua fuga do local.

Momentos antes do início do tiroteio, durante a live, o homem tocou diversas músicas como “The British Grenadiers”, uma tradicional marcha militar Britânica, e “Remove Kebab”, uma propaganda Sérvia nacionalista e anti-islâmica, a qual faz alusão a uma “limpeza étnica muçulmana”.

Ao se aproximar da entrada da mesquita, por volta das 13:40 da tarde (horário local), o atirador foi saudado por um dos fiéis, sendo este a primeira vítima do ataque. Passaram-se vários minutos de tiros indiscriminados dentro da mesquita: primeiro, com uma espingarda semiautomática; depois com um rifle AR-15. Uma luz estroboscópica (luz de flash múltiplo) estava acoplada às armas para desorientar as vítimas.

O ataque durou cerca de 6 minutos e diversas pessoas foram baleadas inúmeras vezes, tendo em vista que, depois da primeira série de tiros, o homem voltou ao carro para buscar outra arma e abrir fogo novamente contra as pessoas que já estavam feridas.

A primeira ligação para a polícia infomando a situação ocorreu cerca de 1 minuto depois do início dos disparos, por volta de 13:41, mas, quando as primeiras equipes chegaram ao local, às 13:46, o atirador já havia saído em direção ao próximo alvo: o Centro Islâmico Linwood. Acredita-se que ele passou pelos veículos políciais durante a fuga, mas não foi detectado.

No momento em que se evadia da mesquita Al Noor, o atirador baleou diversas pessoas nas ruas em carros próximos ao som da música “Fire”, do grupo The Crazy World of Arthur Brown, na qual o cantor proclama: “Eu sou o deus do fogo do inferno!”.

Os policiais receberam relatos de um veículo dirigindo de forma perigosa ao longo da Avenida Bealey, no mesmo momento da fuga, mas quando o atirador chegou ao final da Avenida, a filmagem da câmera cessou e o Facebook cortou a transmissão do atentado que, até então, ocorria ao vivo.

Às 13:52, o segundo ataque se inicia no Centro Islâmico Linwood, a uma distância aproximada de 5 quilômetros da Mesquita Al Noor. Ao chegar ao local, o atirador estacionou o carro na porta da garagem, impedindo a entrada e saída de outros veículos ou pessoas. Algumas testemunhas alegaram que, inicialmente, o homem não encontrou a entrada da mesquita e deflagrou tiros contra as pessoas que se encontravam do lado de fora e por uma janela, que dava para dentro do Centro, onde estavam cerca de 100 pessoas.

Centro Islâmico Linwood

Um dos civis que estavam na mesquita, Abdul Aziz Wahabzada, foi o responsável pela interrupção do ataque. Depois de o terrorista já ter atirado inúmeras vezes contra as pessoas que ali se encontravam, o homem foi até o carro para trocar de arma enquanto Abdul saiu do Centro Islâmico e tentou chamar a atenção para si, jogando um leitor de cartão de créditos no atirador e se escondendo entre os carros no momento dos tiros. Apesar da breve interrupção, o extremista voltou novamente sua atenção para a mesquita, irrompendo uma nova leva de tiros contra a sala de orações. Wahabzada foi atrás do homem com a arma que ele havia descartado e o assustou fazendo com que o ataque cessasse. Diante do ocorrido, o atirador fugiu do local, por volta das 13:55.

Abdul Aziz

Às 13:59, o atirador foi pego na Brougham Street, no mesmo minuto em que a polícia chegava ao Centro Islâmico Linwood, e reconhecido como a pessoa de Brenton Tarrant. O veículo de Tarrant bateu no meio fio devido ao impacto com um carro da polícia antes de sua prisão. Mais duas pessoas foram presas suspeitas de participação nos atentados, mas, posteriormente, ficou confirmado que Tarrant agiu sozinho.

Momento em que a polícia bate no caso de Tarrant e efetua sua prisão

Brenton Tarrant

No total, foram recuperadas seis armas: dois rifles AR-15; duas espingardas calibre 12 e outros dois rifles, um .357 Magnum e um calibre .233, além de mais de 7.000 cartuchos de munição. Acredita-se que Tarrant daria continuidade aos ataques, tendo em vista a quantidade de armas presentes dentro do seu carro, além da intenção de colocar fogo no Centro Islâmico, uma vez que ficou constatado, posteriormente, que ele tinha quatro contêineres de gasolina modificados em seu carro, os quais foram concebidos como dispositivos incendiários.

No total, 51 pessoas morreram durante o massacre e outras 40 ficaram feridas, dentre homens, mulheres e crianças.

 O atirador, Brenton Tarrant, na época com 28 anos, cresceu em Grafton, Nova Gales do Sul – um estado do sudeste da Austrália – e frequentou a Grafton High School, mudando-se para a Nova Zelândia em 2017, onde passou a morar na cidade universitária de Dunedin. Desde então, participou de um clube de rifles e acumulava um arsenal com diversos tipos de armas e munições adquiridas, em sua maioria, pelo site da loja de armas neozelandesa Gun City.

Algumas pessoas próximas a Tarrant disseram que ele trabalhou um tempo como Personal Trainer em sua cidade natal e, em alguns posts na internet, ele alegava ter herdado uma grande quantia em dinheiro após a morte do pai. Brenton demonstrava abertamente um grande fascínio por conflitos religiosos na Europa e nos Bálcãs, visitando vários países no Leste Europeu antes de cometer os ataques. As autoridades neozelandesas acreditam que Tarrant entrou em contato com líderes de grupos fundamentalistas de extrema direita dois anos antes dos ataques, doando cerca de 1.500 euros para o Movimento Identitário Austríaco e 2.200 euros para o ramo francês do mesmo movimento.

Tarrant, que externava-se obcecado por ataques terroristas cometidos por extremistas islâmicos em 2016 e 2017, começou a planejar um ataque cerca de dois anos antes dos tiroteios, escolhendo seus alvos com três meses de antecedência e vigiando-os com drones para avaliar as possíveis entradas e saídas dos locais, bem como a segurança e o fluxo de pessoas. Em 2016, Brenton foi denunciado por uma ameaça de morte feita através do Facebook, onde afirmou “se você é marxista, espero que um dia se encontre com a forca”; “escolha suas palavras cuidadosamente” e “pense em quem você insulta”, depois que seu interlocutor criticou o ex-líder da Frente Patriótica Unida (UPF, sigla em inglês).

Na quarta-feira anterior ao atentado, em uma conta no Twitter com o endereço @brentontarrant, foram postadas imagens de um fuzil e outros equipamentos militares decorados com nomes e mensagens ligadas ao nacionalismo branco. Constatou-se que as mesmas armas foram utilizadas durante o massacre.

Pouco antes dos ataques, Tarrant postou um manifesto, de 74 páginas, no fórum 8chan – conhecido pela extensa gama de conteúdo, dentre eles discursos de ódio – intitulado como “A Grande Substituição” (The Great Replacement), no qual expressou vários sentimentos anti-imigrantes através de discursos sobre a supremacia branca e apelos para que os imigrantes não europeus “sejam removidos” por estarem invadindo sua terra e exterminando sua nação. O manifesto exibe símbolos neonazistas, como o Sol Negro e a runa de Odin, além de citar outros terroristas como inspiração. Tarrant afirma ter se tornado um assassino treinado através de videogames violentos e se descreve como etno-nacionalista, eco-fascista e “removedor de kebab”, exaltando o genocídio de muçulmanos da Bósnia, que ocorreu durante a Guerra da Bósnia. Inclusive, o atirador menciona o Brasil ao citar a diversidade como fraqueza, descrevendo o país como “fraturado como nação”.

No manifesto, existiam links que levavam à live do facebook onde Brenton transmitiu os atentados.

Após o atentado, a política de armas da Nova Zelândia foi alterada para restringir a posse de armas e proibir a posse de espingardas semiautomáticas para pessoas sem a devida licença. Os cidadãos que possuíam esses tipos de armas, em sua grande maioria, as devolveram espontaneamente para as autoridades.

A política do Facebook para transmissões ao vivo também foi alterada em decorrência das críticas acerca do tempo em que a rede social manteve a transmissão dos ataques.

Após ser preso, Tarrant, inicialmente, declarou-se inocente das acusações de homicídio e tentativas de homicídio e do envolvimento no ato terrorista. No entanto, surpreendentemente, em março do corrente ano, declarou-se culpado de todas as acusações, abrindo mão de sua defesa, através de uma transmissão ao vivo por vídeo a partir de sua cela numa prisão de segurança máxima, em Auckland.

Policiais em frente ao tribunal no dia do julgamento de Tarrant

Assim, em 27 de Agosto de 2020, após um julgamento de 3 dias, no qual foram ouvidos depoimentos de mais de 90 sobreviventes do atentado e familiares das vítimas, Brenton Tarrant foi condenado à prisão perpétua, sem possibilidade de livramento condicional, pelos 51 assassinatos, 40 tentativas de assassinato e terrorismo. Confirmou-se que o terrorista planejava um terceiro ataque, em uma mesquita em Ashburton, localizada a uma hora de distância de Christchurch. Brenton se manteve calado diante do depoimento das vítimas e dos familiares, não demonstrando remorso pelo ocorrido.

“Seus crimes são tão perversos que, mesmo que ele seja mantido na prisão até a morte, isso não esgotará a punição e a sentença que eles exigem”, disse o juiz do caso durante a audiência. Foi a primeira vez que alguém foi condenado à pena máxima da Nova Zelândia – prisão perpétua – , sem possibilidade de livramento condicional desde 1961.


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