Entre mentiras e tragédias: o curioso caso de Jennifer Pan, a “Suzane Richthofen canadense”


Jennifer Pan era uma jovem estudante canadense, filha de Bich Ha e Hann Pan, dois imigrantes vietnamitas, quando suas vidas foram mudadas para sempre, em novembro de 2010.

Embora seus pais tenham se mudado para o Canadá no mesmo ano – em 1979 – como refugiados, foi somente ali que eles se conheceram, na cidade de Toronto, onde se casaram um tempo depois. Em 1986 tiveram sua primeira filha, Jennifer, e, três anos depois, nasceu seu irmão, Felix.

Em seus primeiros anos no Canadá, o casal trabalhou junto numa fábrica de peças para automóveis, a uma hora de distância do bairro em que moravam, que não oferecia muita comodidade e segurança. Bich Ha e Hann Pan desejavam ascender econômica e socialmente, podendo proporcionar aos seus filhos a vida confortável que jamais tiveram. Para isso, economizaram por anos cada centavo do escasso salário que recebiam, e, finalmente, conseguiram realizar seu sonho no ano de 2004, quando mudaram-se para uma casa maior e mais confortável num tranquilo bairro residencial.

Hann Pan e Bich Ha

O casal conseguiu administrar tão bem suas finanças que tinha condições de bancar uma boa graduação aos seus filhos, se assim desejassem. Entretanto, em contrapartida, eram bastante exigentes em relação ao seu rendimento escolar, a fim de que conquistassem as melhores oportunidades.

E assim era Jennifer: a garota se esforçava e entregava aos pais exatamente o que eles esperavam dela. Seus boletins continham as notas mais altas da sala e ela sempre se destacava na escola. Ainda no ensino médio, ela foi convidada a ingressar na universidade antes de seus demais colegas e conseguiu uma bolsa integral de estudos.

Jennifer Pan

Toda a disciplina e dedicação de Jennifer a conferiram um diploma em Farmácia pela renomada Universidade de Toronto e um emprego num hospital importante da região, o “The Hospital for Sick Children”.

Tudo se passava normalmente na casa dos Pan no dia 8 de novembro de 2010. Jennifer, então com 25 anos, passara o dia praticando piano, instrumento que tocava desde a mais tenra idade, e se preparava pra ir dormir, por volta das 21 horas. Seu pai já dormia neste horário, pois tivera um longo dia no trabalho e teria de acordar bastante cedo no dia seguinte. A mãe de Jennifer chegou em casa por volta de 21h15 naquela noite, após um encontro com amigas, e quando Jennifer ouviu o barulho da porta, foi ao encontro de sua mãe para cumprimentá-la. Após isso, Jennifer retornou ao quarto e decidiu ligar para um ex-colega de trabalho para conversar um pouco. Os dois conversam por mais ou menos 20 minutos, quando Jennifer escuta movimentos e vozes incomuns no piso de baixo. Neste momento, pôde ouvir também sua mãe falando em inglês e gritando algo para Hann, o que lhe pareceu estranho, pelo fato de que quando a família estava em casa, normalmente utilizava seu idioma nativo para comunicar, o vietnamita. Foi quando a menina entendeu que havia pessoas desconhecidas em sua casa, e, quando os ruídos se tornaram mais altos e agressivos, ela encerrou a ligação com seu amigo. Aqueles passos fortes na escada não poderiam ser de seu pai, que estava dormindo, nem de seu irmão, que naquele momento estava na faculdade.

Sentada em sua cama, Jennifer ouviu a voz de dois homens gritando do lado de fora do seu quarto em meio a gritos de seu pai, que acabara de acordar. Era possível compreender que os homens perguntavam aos gritos onde estava o dinheiro da família, enquanto o casal tentava entender quem eram aquelas pessoas, como haviam entrado ali e o que queriam (a compreensão da língua inglesa dos dois não era boa, portanto ambos ficaram confusos por alguns instantes).

Ao abrir um pouco a porta para ver a situação, Jennifer acaba sendo vista por um dos rapazes, que vai até seu quarto, a arrasta para a sala e amarra suas mãos por trás de suas costas, deixando-a junto de seus pais. Um dos homens pergunta se ela tinha algum dinheiro, e ela o leva até o local onde deixava suas economias para lhe entregar o que tinha. Não satisfeito, o bandido obriga Jennifer a dar-lhes o resto do dinheiro da família, levando-a para o quarto dos seus pais, onde vasculharam todos os cantos até localizarem um pouco de dinheiro de Bich Ha, a mãe de Jennifer. A garota é levada então até o andar de baixo novamente, enquanto os bandidos saqueavam todo o dinheiro que encontravam pela casa – cerca de 1200 dólares, no total –. O valor que conseguiram, no entanto, não foi suficiente para que os desconhecidos deixassem a casa.

Após deixarem Jennifer amarrada com as mãos para trás onde ela estava, os homens levaram seus pais até o sótão da casa, lugar onde a família às vezes se reunia para ver filmes. Lá forçaram o casal a sentar no chão, cobriram suas cabeças e dispararam contra eles. Hann foi baleado logo abaixo do olho direito e o segundo disparo atravessou seu ombro direito, com o projétil saindo por suas costas. Bich Ha morreu imediatamente com os tiros que levou na cabeça. Antes disso, ainda foi possível ouvir a mãe suplicando aos homens para que não machucassem sua filha. A resposta dada a ela foi: “Não se preocupe. Sua filha é muito legal, então não vou machucá-la”.

Registro do sótão da casa após os disparos

Jennifer pôde ouvir os gritos dos homens e o barulho dos disparos, porém pouco podia fazer por estar com as mãos amarradas. Entretanto, com certo esforço, conseguiu pegar seu celular e ligou para a emergência.

– Qual o seu nome?

– Meu nome é Jennifer – disse ela, chorando.

– Alguém invadiu sua casa?

– Alguém entrou e eu ouvi tiros, como um “pop”. Eu não sei o que está acontecendo, estou amarrada no andar de cima.

– Pareceram tiros de arma de fogo?

– Eu não sei como pareciam, apenas escutei um “pop”!

Neste momento, Jennifer foi interrompida por um grito alto que invade a ligação. Ela, então, continua:

– Eu estou bem! Meu pai acaba de sair gritando!

– Você acredita que sua mãe também está lá embaixo?

– Eu não a escuto mais… Venham, rápido, não sei o que está acontecendo!

Jennifer prestando depoimento à polícia após o crime

Apenas Jennifer e seu pai sobreviveram ao crime, porém Hann ficou tão ferido que quando saiu correndo pela rua atrás de ajuda, acabou desmaiando em frente a um vizinho. Uma ambulância foi chamada e Hann foi levado ao hospital, em coma e em gravíssimo estado de saúde. Dada essa situação, não se sabia nem se o pai sobreviveria àquela noite, portanto Jennifer ficou sendo a única testemunha que poderia narrar o que ocorrera. “Jennifer foi inicialmente entrevistada como uma vítima e testemunha”, explicou o detetive Bill Courtice, o principal investigador no caso. E o que a garota contou em seu depoimento foi exatamente a história descrita acima.

Há algumas informações relacionadas à família Pan que foram contadas por Jennifer em seu primeiro depoimento à polícia e que são relevantes para o entendimento do caso. A garota narrou a história de seus pais, contando como se conheceram no Canadá, a forma como conseguiram ascender socialmente e as expectativas que projetavam sobre ela e seu irmão. Segundo Jennifer, os pais queriam lhes dar tudo que jamais puderam ter, e até aquele ponto haviam conseguido fazê-lo com excelência. A jovem detalhou a forma como seus pais eram extremamente exigentes em relação ao seu desempenho escolar e de seu irmão, ordenando que eles sempre tirassem as melhores notas. No entanto, Jennifer conta que apesar de ter se esforçado muito durante a infância – praticava piano diariamente, já havia ganhado diversos prêmios e até mesmo chegou a praticar patinação no gelo –, ela não havia cumprido as expectativas de seus pais ao final do ensino primário, isto é, não alcançara as melhores notas ou conquistara grandes títulos. Ainda assim, garantiu que recebia grande apoio e incentivo dos pais, e que então prosseguiu com os estudos até a faculdade.

Jennifer conta que focou em tarefas extracurriculares, pois seus pais diziam que isso a valorizaria academicamente e aumentaria as chances de que ela pudesse ingressar na melhor universidade de Toronto. Poucas concessões eram feitas aos filhos no que diz respeito a atividades de lazer: não era permitido que eles frequentassem festas, namorassem ou passassem tempo demais com seus amigos, com o objetivo de que não desviassem dos estudos. Uma das poucas vezes que os pais de Jennifer a permitiram que fizesse algo diferente foi na ocasião da viagem de fim de ano do ensino médio, em que a turma passou duas semanas na Europa. Foi nessa viagem que Jennifer se aproximou de um rapaz chamado Daniel Wong, um colega com quem acabou se tornando mais que amiga.

Daniel Wong

É sabido que Jennifer manteve esse relacionamento com Daniel sem que seus pais soubessem do que se passava, e que, ao final do ensino médio, o rapaz começou a negligenciar os estudos e a se envolver com drogas. Ele chegou a ser acusado por tráfico de drogas quando 200 gramas de maconha foram encontrados em seu carro. Jennifer, no entanto, dizia que não se interessava por drogas, que não tinha qualquer relação com o ocorrido, e que permaneceria com o rapaz, ainda que seus pais não aceitassem que ela se envolvesse amorosamente com outras pessoas. Quando Hann e Bich Ha tomaram conhecimento da relação que sua filha tinha com Daniel, lhe disseram que ela não tinha outra escolha senão terminar com ele. No entanto, ela não o fez e continuou se encontrando com ele em segredo.

Em relação à sua graduação, Jennifer fora aceita na Universidade Ryerson, num convite de admissão antecipada da universidade. A notícia não agradou muito aos seus pais, que esperavam que ela ingressasse na Universidade de Toronto, que é melhor conceituada. Contudo, eles acabaram se conformando quando souberam que a filha poderia cursar dois anos naquela instituição e em seguida requerer o ingresso em Farmácia na Universidade de Toronto.

Jennifer pediu permissão a seus pais para que pudesse passar a noite na casa de sua amiga Topaz três vezes por semana ao longo da graduação, pois a menina morava nos arredores da universidade e isso lhe ajudaria a ir para as aulas com mais praticidade. Algum tempo depois, Jennifer conseguiu o trabalho no The Hospital for Sick Children e se graduou na Universidade de Toronto, o que deixou seus pais bastante satisfeitos.

Todas estas informações eram contadas por Jennifer à polícia nos dias que sucederam o crime. No entanto, algumas inconsistências apareciam nos depoimentos de Jennifer, e a garota deixava de ser tida como vítima e testemunha do crime e passava a ser vista como suspeita pelos investigadores. Era estranho que a cada depoimento ela parecesse se lembrar de mais detalhes daquela noite e tentasse “corrigir” informações que já havia dado, porém as entrevistas seguiam acontecendo como deveriam. Durante as investigações, seu celular chegou a ser examinado para que averiguassem as chamadas feitas e as mensagens que havia trocado.

Um fato que foi contestado pelos investigadores foi que o crime não parecia ter sido apenas um simples roubo, conforme contava Jennifer, pois aparelhos eletrônicos e dinheiro foram encontrados facilmente na casa. “Se havia dinheiro nas carteiras e nas bolsas, por que os bandidos não os teriam levado?”, se perguntavam.

Jennifer Pan em um de seus depoimentos prestados à polícia

No dia 11 de novembro, Jennifer foi chamada para um terceiro depoimento, em que já haviam novas mudanças em sua versão e novos dados sobre os assaltantes. Contudo, o que mais estranharam foi a forma com que Jennifer descreveu ter ligado para a emergência, mesmo estando com as mãos amarradas. Ela diz ter sacado o celular do bolso traseiro, discado 911 e gritado para ser ouvida por quem lhe atendeu. Ao ser contestada sobre como ouvia o que era dito na ligação, ela hesitou e afirmou ter colocado o volume do celular no máximo. A essa altura, Jennifer já era a principal suspeita do crime.

Confusos com as versões contadas pela jovem, os investigadores colhem depoimentos de ex-amigos de Jennifer, antigos colegas de ensino médio e até de Daniel Wong, que respondeu tranquilamente cada pergunta feita e disse que sua relação com a garota já havia terminado há mais de dois anos.

Com os relatos coletados, juntavam-se as peças do quebra-cabeças de Jennifer Pan e a verdade sobre sua controversa história pôde ser finalmente desmascarada. Vinha à tona tudo que ela realmente havia feito ao longo da última década de sua vida e como era sua verdadeira relação com seus pais. A garota, que queria ser a melhor aluna do colégio e da faculdade, que queria atender às altíssimas expectativas de seus pais e realizar seus sonhos não alcançados, passou a forjar todo seu sucesso a partir do momento em que não logrou êxito com os anseios que seus pais direcionavam a ela, ainda no ensino primário. A partir desse momento, Jennifer perdeu toda a motivação para tentar ser uma aluna acima da média e decidiu falsificar seus boletins escolares ao longo de todo o ensino médio. Aos olhos de seus pais, a garota era uma estudante exemplar, embora possuísse, na realidade, um desempenho medíocre na escola. Além disso, a garota chegava a se autoflagelar secretamente, infligindo cortes em si mesma como um reflexo de suas angústias e inseguranças.

A menina não conseguira sequer concluir o ensino médio, pelo fato de ter reprovado na disciplina de matemática e não ter feito a matéria novamente. O convite de admissão antecipada da Universidade Ryerson chegou a existir, porém a instituição desfez a oferta justamente em razão desta reprovação de Jennifer na escola. Apavorada com a possível reação de seus pais, ela falsificou o aceite da universidade e, para justificar a ausência de mensalidades, apresentou aos pais um documento falso que supostamente sustentava uma bolsa integral.

Quando “saía para ir à universidade”, na realidade ela ia a bibliotecas públicas, onde passava horas estudando livros de ciência com a esperança de que conseguisse aprender farmacologia por conta própria. Quando não estava na biblioteca, Jennifer ia ao encontro de Daniel Wong. Além disso, ela chegou a conseguir trabalhos secundários, como um emprego em uma pizzaria gerenciada por Daniel e dar aulas de piano – um grande sonho seu, porém reprimido em sua infância –. Durante todo este tempo, Daniel era o único que sabia de toda a verdade.

Para sustentar a mentira em torno de sua graduação em Farmácia, Jennifer falsificou uma carta de admissão da Universidade de Toronto e passou os dois anos seguintes fingindo frequentar as aulas de lá. Seu trabalho no hospital também foi forjado, e acabou consolidando a mentira por trás dos supostos “pernoites” em sua amiga Topaz. Jennifer usou a desculpa do emprego para ficar mais tempo ainda fora de casa, já que a casa de sua amiga também era próxima do hospital em questão.

Chegada a época de sua suposta graduação, Jennifer conseguiu, com a ajuda de Daniel, produzir um histórico escolar falso – com excelentes notas, evidentemente – para apresentar aos seus pais. Para driblar a família em relação à cerimônia de colação de grau, ela disse a eles que, como havia muitos formandos, o número de convites era limitado a uma unidade por estudante. Dessa forma, ela pôde mentir que optou por dar o convite a Topaz, para que não tivesse de escolher entre os pais.

Um ano depois disso, já em 2009, Jennifer, que já estava com 24 anos, começou a despertar suspeitas de seus pais em relação ao seu suposto emprego no hospital. Eles notaram que a filha não tinha uniforme, crachá ou quaisquer outros itens que pudessem comprovar seu trabalho. Seu pai, então, decidiu que queria ver onde ela trabalhava e se ofereceu para levá-la ao trabalho um dia, como um “gesto de gentileza”. A garota, que não podia negar a proposta de seu pai, aceitou e foi com ele até o hospital, onde ela entrou e passou as horas seguintes esperando dar o horário para retornar.

As mentiras de Jennifer desabaram quando seu pai decidiu ligar para Topaz pedindo para falar com sua filha. A garota disse que Jennifer não se encontrava, e, após ser pressionada por Hann, acabou revelando que a amiga jamais passara a noite em sua casa.

Ao retornar para casa na manhã seguinte, Jennifer foi confrontada por seu pai, que descobriu que aquela era uma desculpa que a filha contava para que pudesse passar mais tempo com Daniel, com quem ela estava proibida de se relacionar. Seus pais a obrigaram a terminar o relacionamento com ele, dizendo que ela nunca mais poderia ver o rapaz novamente. Foi naquela ocasião que Jennifer confessou a verdade: que ela não era a filha de ouro que eles acreditavam que ela fosse. A única coisa que Jennifer não admitiu foi sua reprovação no ensino médio, portanto seus pais seguiram acreditando que ela chegara a cursar os dois primeiros anos na Universidade Ryerson e que ela apenas precisava ingressar na Universidade de Toronto para graduar-se em Farmácia.

Jennifer quase foi expulsa de casa e teve uma série de restrições impostas por seus pais, dentre as quais a que mais lhe incomodava era de não poder se encontrar com Daniel. Também lhe tiraram o celular e o computador. Um tempo depois, o casal também descobriu sobre o ensino médio incompleto e a obrigaram a terminá-lo, para que ao menos pudesse trabalhar no futuro.

Incomodado com as restrições impostas a Jennifer, Daniel decidiu terminar seu relacionamento com ela. O rapaz estava completamente insatisfeito com o fato de os pais da garota a tratarem como uma adolescente, uma vez que isso também comprometia sua relação com ela. Não demorou para que Daniel conhecesse outra mulher, chamada Christine, e isso foi combustível para que Jennifer criasse outra mentira: no início de 2010, sem tolerar o novo romance de seu ex-namorado, ela inventa uma história de que alguém havia invadido sua casa para abusá-la a mando de Christine. Tratava-se de uma tentativa desesperada de fazer com que Daniel terminasse seu novo relacionamento. Jennifer e o ex-namorado acabaram mantendo contato ao longo do ano e arquitetaram juntos o crime ocorrido na noite de 8 novembro daquele ano. Jennifer havia percebido que ela jamais teria permissão para fazer o que quisesse enquanto seus pais estivessem vivos.

A investigação tomou um rumo decisivo quando o pai de Jennifer, Hann Pen, despertou do coma, três dias depois, e pôde contar a sua versão dos fatos, tal como realmente ocorreram. O homem se encontrava num estado completamente debilitado, com o rosto desfigurado, porém foi capaz de dizer o suficiente.

O pai revelou que podia ver sua filha falando com os homens que invadiram sua casa em tons amigáveis, como se já se conhecessem. Ela não só não estava amarrada, como também podia caminhar livremente pela casa enquanto tudo ocorria. Quando Jennifer compareceu ao funeral de sua mãe com Felix, ela já estava sob vigilância como uma “pessoa de interesse”, e os detetives já podiam atestar o quão fácil para ela era mentir. Ela não demonstrava qualquer sentimento na ocasião, porém tentava demonstrar aos investigadores presentes que estava abalada com o ocorrido.

Com a evolução das investigações, foi possível descobrir o que realmente ocorreu naquela noite. Jennifer convencera Daniel a participar do suposto assalto em sua casa, em que o objetivo era assassinar seus pais para que ela ficasse livre de suas imposições e pudesse herdar sua herança, construindo um futuro ao lado do namorado. Ele, por ser traficante, tinha diversos contatos de pessoas envolvidas no mundo dos crimes, e lhe apresenta um homem chamado Lenford Crawford. Para que Jennifer pudesse tratar dos trâmites de seu plano, Daniel lhe dá um novo celular, exclusivamente para isso. Crawford, por sua vez, recrutou mais dois outros amigos, fechando o grupo que mais tarde cometeria o crime.

Jennifer e os demais envolvidos no crime

A garota prometera uma recompensa de 5 mil dólares por cada um dos seus pais, totalizando, portanto, um pagamento de 10 mil dólares pelo crime. Todas essas informações foram conseguidas pelos detetives graças ao que Jennifer foi revelando aos poucos e também pelo que se descobriu por meio dos registros telefônicos do aparelho celular utilizado nas negociações.

Durante o terceiro e último interrogatório feito com Jennifer, os detetives já estavam certos de que ela era culpada do crime e já possuíam evidências suficientes para confirmá-lo. Foi nessa ocasião que ela, encurralada, confessou o crime.

A garota foi detida naquele mesmo momento e acusada por assassinato em primeiro grau, tentativa de homicídio e conspiração para cometer assassinato, sendo finalmente levada ao tribunal em março de 2014, junto com os demais envolvidos. Durante seu julgamento, ela ainda tentou voltar atrás e criar novas versões do que teria acontecido, dizendo que queria dar um fim em sua vida mas que, sem coragem para fazê-lo por si mesma, contratou Lenford Crawford para que ele providenciasse alguém para matá-la em casa. Em seguida, segundo ela, ela teria mudado de ideia em cima da hora, porém isso teria irritado os assassinos e os levado a ir contra seus pais. Nenhuma das tentativas de Jennifer de inverter o jogo foi bem sucedida, e ao fim de um julgamento que durou cerca de nove meses, ela foi julgada culpada por homicídio em primeiro grau e sentenciada à prisão perpétua, sem possibilidade de pleitear liberdade condicional até que 25 anos da pena tenham sido cumpridos. Os outro quatro homens também foram condenados à prisão perpétua.

O pai de Jennifer não esteve presente em seu julgamento, mas escreveu um discurso que foi lido ao júri em que dizia: “Quando perdi minha esposa, eu perdi minha filha ao mesmo tempo. Eu não sinto mais que tenho uma família”.

O irmão de Jennifer, Felix, disse aos jurados que não percebera a rebeldia de sua irmã, porém admitiu que, de fato, seu pai era muito rígido e exigente. Segundo ele, “Hann Pan era da velha guarda” e “muito controlador”, porém isso seria “sua forma de demonstrar amor”. Após o julgamento, Felix se mudou para a Costa Leste do país.

Jennifer insiste em sua inocência e deseja desesperadamente falar com sua família, porém está impedida por uma ordem que restringe sua comunicação, portanto não poderá contatá-los enquanto continuar presa.

Felix – o irmão de Jennifer – segurando uma foto de sua mãe, Bich Ha

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