Tragédia na USP: O caso de Edison Tsung


O trote universitário nada mais é do que um ritual comum e corriqueiro, cuja o objetivo é celebrar, através de festas, gincanas e brincadeiras, a chegada de novos alunos em uma universidade. A apresentação da faculdade, da atlética, bateria e algumas vezes, o ato de pegar dinheiro no sinal, são algumas das coisas que torna a iniciação divertida. 

Para que esse momento seja inesquecível, não precisa de muitos ingredientes para acontecer. Porém, o que ocorreu no dia 22 de fevereiro de 1999, acabou contando com itens a mais, mudando completamente esse cenário, quando o corpo de um estudante de medicina foi encontrado no fundo da piscina do Clube Osvaldo Cruz, no dia 23. 

Edison Tsung Chi Hsueh, de 22 anos, havia acabado de passar no curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ele já tinha estudado na Santa Casa e fez sua inscrição em sua nova faculdade nos dias 8 e 9 de fevereiro. No dia de sua morte, ele saiu de casa achando que seria o primeiro dia de aula. 

O trote da turma 86, era uma grande festa em céu aberto, dentro do Clube Osvaldo Cruz, com mais de 200 estudantes, dentre estes muitos veteranos, todos estavam à beira da piscina — que tinha 5 metros de profundidade — bebendo e, utilizando certos tipos de drogas ilícitas. A mudança climática do dia, começando uma chuva forte, fez com que todos corressem para um local coberto. 

Foi nesse meio tempo que Edison caiu na piscina, de acordo com as possibilidades apontadas pelos legistas. Entretanto, não se sabe como ele foi parar na água, uma vez que, ele não sabe nadar. Em seu corpo, não foram encontrados sinais de agressões, e em seu laudo consta que ele estava completamente sóbrio quando morreu afogado, entre às 14h e 16h do dia 22. Alguns estudantes presentes, voltaram a mergulhar na água nesse mesmo dia, mas não viram o corpo do colega. Segundo testemunhos, a piscina estava turva, devido a quantidade de tinta, o que dificultou que pudessem enxergar seu corpo. 

O que a polícia sabe, em meio a tantas dúvidas que cercam o caso, é que o trote foi bastante violento. Em 68 cartas escritas à mão, por calouros presentes no dia contando sobre a festa, Edison aparece em pelo menos três delas. Em grande maioria dos textos, os jovens narram que veteranos coagiram até mesmo aqueles que não sabiam nadar a entrar na piscina. 

 “Veteranos (…) obrigaram uma caloura, que não sabia nadar, a entrar na piscina. A caloura avisou que não sabia nadar. Mas mesmo assim teve de entrar na piscina, coagida. Ela foi retirada da piscina por outros veteranos.”

“(…) Em certos momentos, (os calouros) se apoiavam na borda da piscina. Alguns veteranos pisavam nas mãos dos calouros, intimidando-os a permanecer na água (…)”

Após a morte do estudante, a USP vetou qualquer tipo de atividade que atente contra a integridade física e moral, além de proibir o comércio e o consumo de bebidas alcoólicas em qualquer atividade relacionada à recepção dos calouros, seja na parte externa ou interna do campus. E como meio de reforçar tal veto, a faculdade criou um Disque-Trote e um aplicativo, visando o bem-estar e a integridade de todos que fazem parte da instituição.

Em uma entrevista concedida ano passado para o jornal O Estado de S.Paulo, a mãe e professora Yen Yin Hwa Hsueh, de 75 anos, ainda sonha que a justiça seja feita. “Ainda não sei o que aconteceu com o meu filho. Após tanto tempo, só queria as fitas das filmagens que sumiram e nos prometeram. Precisamos de justiça. Abafaram o caso”, diz. 

Foram acusados quatro veteranos, que hoje já são médicos formados: Frederico Carlos Jaña Neto (o Ceará), Ary de Azevedo Marques Neto, Guilherme Novita Garcia e Luís Eduardo Passarelli, o Tirico. Apenas Ceará permaneceu preso, por cinco dias, em 1999. Seu mandado de prisão foi efetuado após a gravação de um vídeo em que dizia, em tom de brincadeira: “Eu sou o assassino do calouro da USP. Eu matei o japonês afogado”. José Roberto Batochio, advogado do Ceará, afirma que o processo foi justamente arquivado e para ele, o que aconteceu foi um acidente, como ocorrem mensalmente em diversos clubes do brasil e em piscinas residenciais. Os quatro acusados responderam o processo em liberdade e hoje são médicos formados e exercem ativamente sua profissão. 


Um comentário em “Tragédia na USP: O caso de Edison Tsung

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: