O Holocausto Brasileiro


“Os pacientes vieram para cá em trens de carga e, quando chegavam, já eram desumanizados. Passavam por ‘banho de desinfecção’, tinham a cabeça raspada, eram uniformizados. Foi uma tragédia. Claro que não na proporção dos judeus, mas foi uma tragédia singular na nossa história”, compara Daniela, autora o livro “O Holocausto Brasileiro”.

O Hospital Colônia de Barbacena foi um hospital psiquiátrico, fundado em 12 de outubro de 1903 na cidade de Barbacena, Minas Gerais. O hospital fazia parte de um grupo com sete instituições psiquiátricas, e por esse motivo recebeu o apelido de “cidade de loucos”. Antes de se tornar um local focado no “tratamento” de doenças psiquiátricas, a Colônia cuidava de pacientes vítimas da tuberculose, explicando assim sua localização afastada. Construído em cima de uma montanha, o local era perfeito para também excluir as pessoas que estavam à margem da sociedade.

Com o passar dos anos, o que era para ser uma instituição médica se tornou um local de tortura. A instituição era composta por diversos prédios e pavilhões, cada um com a sua especialidade. Dentre os quais estavam: o Pavilhão Zoroastro Passos, local onde iam as mulheres indigentes, e o Pavilhão Antônio Carlos, área dos homens indigentes. Os demais Pavilhões, Afonso Pena, Milton Campos, Rodrigues Caldas e Júlio de Moura, recebiam todo o tipo de pessoa. Muitas pessoas eram internadas no Hospital Colônia, pela própria família. Este era o caso de mulheres indesejadas pelos maridos, e de familiares que possuíam algum tipo de distúrbio, deficiência ou transtorno, como Autismo, Dislexia ou Síndrome de Down.

Hospital Colônia Barbacena-MG.

Separados por sexo, idade e características físicas, os pacientes eram as ilustres personas que faziam parte da tragédia anunciada, que o hospital propunha. Muitos deles vinham de fora da cidade de Barbacena, através de um trem, que mais tarde seria comparado com os campos de concentração nazistas, que outrora eram abastecidos por trens. Se você acha que isso é muito pouco para fazermos uma comparação com campos nazistas, veja só, cerca de 70% dos internados não apresentavam registro de doenças mentais. Seu público alvo era formado por alcoólatras, militantes políticos, gays, mães solteiras, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos, dentre outros. Barbacena já não era um hospital psiquiátrico, tornou-se um depósito de pessoas indesejadas socialmente.

Prisioneiros na Colônia.

A tortura marcou presença nos dias de todos os internos em Barbacena. As mais utilizadas eram: ducha escocesa (banho dado através de máquinas de alta pressão), tratamentos de choque, entre outros. Todos aplicados naqueles que não possuíssem um bom comportamento. O crime de estupro também foi relatado por diversas vítimas. O Hospital Colônia poderia abrigar cerca de 200 pessoas, entretanto, chegou a receber 5 mil. A solução encontrada foi trocar colchões por capins. Todos os 16 pavilhões eram regados de atos desumanos, onde não havia água encanada e muito menos comida. Muitos internos se banhavam e bebiam no esgoto. Com as sessões de horrores, muitos pacientes não resistiram, e morreram.

Uma das crianças que eram prisioneiras.

As mortes eram muitas, e o cemitério local já não suportaria tanto. A solução mais cabível achada foi a de traficar os corpos dos pacientes já mortos para as Universidades de medicina. Se não houvesse procura por parte das faculdades, os corpos eram dissolvidos em ácido. Torturas, superlotação, abandono, crueldade e condições subumanas, isto só resultou na Auschwitz brasileira. Cerca de 60 mil vidas foram ceifadas na Colônia de Barbacena, isto até o fim dos anos 80. No ano de 1996, um dos pavilhões foi transformado em museu para manter a memória daqueles que foram perdidos. Atualmente, restam cerca de 200 sobreviventes da tragédia.

Prisioneiro em condições sub humanas.

No ano de 1961, o fotógrafo Luis Alfredo, da revista Cruzeiro, foi o primeiro a divulgar os horrores que aconteciam no hospital. Ele literalmente fotografou tudo aquilo que outrora se ignorava, vidas sendo mortas. Em 1979, o jornal Estado de Minas publicou uma reportagem chamada de ‘Os porões da loucura’ e no mesmo ano, foi gravado o documentário ‘Em nome da razão’ de Helvério Ratton.

Uma das imagens capturadas pelo fotógrafo Luis Alfredo.

O assunto foi retomado no ano de 2013, quando a jornalista Daniela Arbex lançou o livro ‘Holocausto Brasileiro – Vida, Genocídio e 60 mil mortes no maior Hospício do Brasil’.No ano de 2016, a HBO lançou um documentário chamado “Holocausto Brasileiro”, que foi veiculado pelo canal fechado Max. O roteiro e a direção têm a assinatura da jornalista, juntamente com Armando Mendz.

Daniela Arbex, ao lado de seu livro, “O Holocausto Brasileiro”.

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