A verdadeira história do filme “A órfã”.


O artigo seguinte contém relatos bizarros e perturbadores de canibalismo, o que poderá ser um gatilho para certas sensibilidades. Se não se sente confortável com este tipo de relatos, não prossiga a sua leitura.


Em 7 de maio de 2007, em Kurim na República Tcheca, um homem tenta instalar um monitor ligado à uma câmera de vigilância inserida no quarto do seu filho recém nascido, quando capta o sinal de outra vigilância na vizinhança. No monitor do sistema, surge uma criança no chão, com as mãos e os pés amarrados. A criança do sexo masculino encontrava-se nua, suja e não aparentava, de todo, ser saudável. Ocasionalmente, surgia igualmente nas imagens, a mão de uma mulher a alimentá-la, ainda que maioritariamente a criança comesse diretamente do chão.

Chocado com as perturbadoras imagens do monitor, o homem notifica imediatamente as autoridades e portanto, de porta em porta, tentava encontrar a fonte deste sinal. Embora as informações não fossem concretas e se resumissem àquelas imagens, a vizinhança mostrava-se prestativa. Eventualmente, a polícia abordou uma pequena casa amarela. Quem os recebeu foi Klara Mauerova de 31 anos, e Katarina Mauerova de 33. Klara era formada em pedagogia e era mãe solteira de três filhos; Ondrej de 8 anos, Jakub de 9 e Anna, a filha adotiva de 14 anos. As duas irmãs mostraram-se extremamente prestáveis, deixando as autoridades investigar livremente a casa, até ser identificada uma porta trancada que seria, alegadamente, de um armário utilitário que se recusavam a abrir.

Katerina Mauerova.
Klara Mauerova.

À vista disso, as autoridades tiveram que chamar os bombeiros para forçar a sua entrada e após o fizerem, a realidade do monitor surge em quatro dimensões. Portanto, a criança correspondia a Ondrej, o filho mais novo de Klara, e o espaço consistia num compartimento relativamente pequeno cujo pavimento se encontrava coberto do próprio vômito e excremento da criança, que se encontrava desidratada. Consequentemente, Klara e Katerina foram imediatamente detidas e portanto, as crianças ficaram ao cuidado dos serviços sociais.

Durante esse entretempo, Jakub e Ondrej contavam relutantemente à polícia o abuso ao qual tinham sido submetidos nos últimos 8 meses, contudo, ao divulgar estas informações, as crianças agiam e falavam como se considerassem merecedores dos maus tratos. Apesar de ambos os meninos evitarem revelar detalhes dos abusos que sofreram, segundo os seus relatos, ao que parecia Anna não havia sofrido qualquer tipo de agressão física ou moral.

Vamos então recuar um pouco até aos primórdios do crime em si. Em 2005, Klara morava apenas com os seus dois filhos biológicos e os dois rapazes tinham uma vida fantástica, Klara era efetivamente uma ótima mãe. As crianças frequentavam as melhores escolas, aprendiam idiomas, praticavam desportos, festejavam os seus aniversários com amigos e frequentavam identicamente vários campos de férias. Sem embargo, tudo isto mudou drasticamente após uma visita da irmã de Klara, Katerina, que trazia consigo uma menina de 13 anos, Anna. Anna era órfã e Katerina estaria a tomar conta dela, uma vez que a menina fugia de um gangue de tráfico sexual na Noruega. A menina descrevia horríveis histórias de abusos sexuais que vivenciou e apresentava nítidas evidências de um amadurecimento forçado, apesar da sua tenra idade. Infelizmente, a criança era também extremamente doente e tinha uma série de problemas, nomeadamente leucemia e falência renal. Aparentemente estaria a ficar cega e surda, e como resultado ela teria que passar a maior parte do seu tempo no hospital.

Klara era descrita pela comunicação social como fraca e facilmente manipulável. A mulher recebeu Anna na sua própria casa de braços abertos, com amor e como se fosse da sua própria família. Porém, sempre que Katerina ia com Anna ao hospital, ela nunca as acompanhava, ainda que Klara acabasse por ter que ligar para o hospital todos os dias múltiplas vezes para falar com Anna por chamada, ainda que a criança estivesse num estado inconsciente. Ao longo destas chamadas, o médico presente transcrevia o que Klara dizia para que Anna ouvisse a sua “mãe” durante este estágio da sua terapia. A situação toda em si era bizarra, mas eventualmente Klara começa a receber e-mails e mensagens de uma identidade misteriosa. Nas mensagens, esta identidade alegava ser o médico de Anna e dizia-se conhecedor do tratamento que a iria curar definitivamente. Klara apenas se encontrara uma vez com este homem, todavia, o encontro fora no interior de um carro, à noite e com uma iluminação escassa e por esse motivo, ela não conseguiu ver seu rosto. Nesse encontro, o homem misterioso mostrou os registos médicos de Anna e mostrou igualmente o seu passaporte diplomático. Estes documentos garantiram a Klara uma certa segurança e uma sensação de legitimidade e assim sendo, ela confiava e acreditava em tudo o que este homem lhe dizia.

Nas mensagens e e-mails enviados, o médico descreve inúmeras formas de tratar Anna, um dos métodos era “massagear” por várias horas e várias vez por dia, o corpo todo da criança, especialmente a zona das virilhas. Segundo o médico, isto deixaria a criança feliz. Klara também recebia imensas más notícias por mensagem e e-mails, que indicavam que Anna estaria a ficar cada vez mais cega e surda, que o seu coração estava a falhar, etc. E isto era porque Anna, era na realidade Barbora Skrlova de 31 anos, que acabara de se graduar numa universidade de artes dramáticas e que, para se assemelhar mais a uma criança de 13 anos, havia feito uma redução nos seios e uma lipoaspiração. Skrlova era amiga de Katerina, uma pessoa extremamente misteriosa neste caso, tanto que ainda não existem, até ao momento, grandes informações acerca desta mulher. Apesar das suas descrições de abusos sexuais, Barbora nunca tivera qualquer tipo de relações sexuais. A mulher assemelhava-se efetivamente a uma criança e foi suposto que ela era uma órfã norueguesa, contudo, apesar de falar noutro idioma, não existia qualquer sotaque norueguês. Isto explica o porquê, certo ponto antes da descoberta, de Klara ter recebido uma mensagem que dizia que Anna havia sido raptada no hospital. Obviamente Klara ficou alarmada com esta mensagem, uma vez que se afeiçoara verdadeiramente à “criança” e que a amava como um dos seus filhos biológicos, só que nesse meio tempo, Anna/Barbora, estaria na verdade, a tirar umas férias nas montanhas. Descobre-se mais tarde, no decorrer da investigação, que todas as mensagens e e-mails que Klara recebia, eram na realidade enviadas através dos computadores e telemóveis de Barbora e Katerina.

Barbora Skrlova enquanto Anna.

Como foi referido, Klara era descrita como fraca e facilmente manipulável, e por ter estas características, Katerina e Barbora elegeram-na para seu teatro. Skrlova tinha uma extrema facilidade em adquirir os documentos necessários para comprovar que era uma criança de 13 anos chamada Anna, facilidade essa que foi também o que motivou a sua personagem, juntamente com Klara, que a recebera em sua casa e que a inseriu na República Tcheca. Katerina e Josef, pai de Barbora com 75 anos, foram os responsáveis por ajudá-la neste processo de se inserir no país e eventualmente de adquirir os documentos necessários.

Em 2006, Klara começava a negligenciar os seus filhos biológicos prestando-lhes muito menos atenção. Esta negligência derivava da sua vontade de querer ajudar Anna ou Annika, por esta ter passado por tanto. Klara sentia-se mal pela menina e portanto, queria vê-la feliz e recuperada, especialmente depois de todas as coisas que tivera supostamente vivenciado na Noruega. Assim sendo, os filhos biológicos de Klara começam então a passar mais tempo com os seus avós e a mãe decide adotar oficialmente Anna. O único problema deste processo de adoção, era o fato do médico de Anna dizer que a adoção seria impossível pois Jakub e Ondrej a maltratavam.

À vista disso, o médico convence Klara de que ela teria que curar os espíritos malignos dos meninos com terapia. Ele recomendou que a mãe fosse menos afetiva, aplicasse punições físicas e uma disciplina mais rigorosa. Klara seguiu as instruções à risca: agredia fisicamente as crianças por motivos muito mínimos, por vezes parecia até que procurava motivos para o fazer. Nestas punições usava as suas próprias mãos e por vezes cintos e a colher de pau. Eventualmente ela também trancava as crianças em espaços pequenos. É então que, a agosto de 2006, o médico diz que os tratamentos aplicados não são eficazes e que as crianças deveriam passar a ter terapia de choque. O homem sugere a Klara que deixe de agir como mãe dos dois meninos e os leve para um chalé em Veverská Bítýška.

No chalé, os dois rapazes estavam acompanhados por Klara, Jans Skrla, irmão de Barbora de 25 anos e de Jan Turek e Hans Basova de 28 anos, conhecidos de Klara devido aos acampamentos de férias frequentados pelos seus filhos biológicos. Katerina também estaria lá.

Jans Skrla.

No chalé, Ondrej e Jakub eram submetidos às mais atrozes torturas. Eles eram mantidos em transportadoras para cães que, por serem tão pequenas, impediam que os rapazes conseguissem sequer ficar de pé, mantendo-os sempre ajoelhados. Klara mergulhava as cabeças dos meninos em água durante tanto tempo que os mesmos por vezes achavam que iam morrer afogados e, em simultâneo, Katerina mantinha as mãos das crianças atrás das costas para que não resistissem à tortura. As crianças eram também queimadas com cigarros, arranhadas com garfos, sofriam abusos sexuais, eram obrigadas a lutar entre si e quando não estavam sendo torturadas, eram mantidas com as mãos e os pés amarrados atrás das costas. Ao fim de um tempo Jans e Jan juntam-se à tortura e agora que não eram apenas as irmãs Mauerova a torturar, os abusos escalavam rumo ao extremo. Os adultos cortavam pedaços de carne do corpo de Ondrej e comiam, obrigando também o próprio Ondrej e o irmão a comer. Quanto aos cortes no corpo da criança, queimavam com cigarros. Eventualmente, Anna ou Barbora junta-se aos maltratos das crianças, metendo as suas cabeças em baldes de água e agravando a tortura deles, dizendo aos adultos que os irmãos a maltratavam. Assim, consequentemente, os adultos sentiam ainda mais vontade de torturá-los.

Jan Turek.

Entretanto, Hans Basova também se junta aos adultos restantes. A tortura decorreu durante 8 dias e durante esse período os adultos fingiam magoar e abusar igualmente de Anna, para que os rapazes pensassem que também ela estava a ser punida. Todavia, mais tarde, em setembro de 2006, Klara decidiu suspender novamente o processo de adoção. Desta vez, o obstáculo era o fato do tribunal exigir o DNA da criança em qualquer processo de adoção. O médico de Anna discordava com isto e dizia que era arriscado ter o DNA da menina no processo. Contudo, Klara decidiu avançar e oficializar a adoção, uma vez que, de alguma forma, convenceram a filha de um ator local, Viktor, a fazer-se passar por Anna em pleno tribunal. Suspeita-se que tenha sido usado o DNA da filha de Viktor para avançar com o processo. Uma das imensas teorias deste caso, resume-se ao envolvimento de Viktor neste culto e crime. Viktor cedeu o DNA da sua filha para levar a cabo a oficialização da adoção e o objetivo de todo este macabro caso.

Após a adoção oficial, Klara entregou os seus filhos biológicos à Katerina para que ela cuidasse deles, a finalidade era dar mais atenção à Anna e estar mais presente na sua recuperação. Klara alega que confiava na sua irmã e acreditava que os seus filhos estariam em boas mãos. Em janeiro de 2007, Jakub, Ondrej e Katerina mudam-se com Klara e Anna para uma nova casa, a inicialmente referida casa amarela que fora arranjada pelo misterioso médico. Infelizmente, nessa casa a tortura continuava, provavelmente porque Anna alegava que os irmãos a maltratavam. Ao contrário dos rapazes, Anna tinha um quarto luminoso, colorido, repleto de brinquedos e irradiava felicidade. Klara cuidava extremamente bem da menina e isto leva-nos de volta a maio de 2007, quando ocorre a descoberta do monitor instalado e a detenção das irmãs Mauerova. Após a detenção, as três crianças foram transferidas para uma casa de abrigo, da qual Anna ou Barbora escapa, talvez com receio de ser descoberta a sua mentira doentia. Primeiramente, foi para a Dinamarca, e depois para Oslo na Noruega. Aí, Barbora interpretou uma nova personagem.

Adam era um menino efetivamente real que foi colocado com urgência num centro de abrigo por ter sofrido horríveis abusos por parte do seu pai. No entanto, em meados de setembro de 2007 Adam desapareceu. Seu rosto foi espalhado por todo o lado em cartazes e toda a gente o procura. Eventualmente o menino foi avistado numa cidade do norte, e por essa altura que é novamente inserindo num centro de abrigo, para ser posteriormente transferido para Oslo. Todavia, quem ia realmente voltar para Oslo, não era Adam, mas sim Barbora já com seus 33 anos.

Enquanto isso, as irmãs Mauerova não eram obviamente as únicas envolvidas neste bárbaro caso, existiam também as pessoas do chalé que compactuavam com as torturas feitas aos dois rapazes. Todas estas pessoas estavam no fundo ligadas a Josef, o pai da Barbora. A identidade deste homem apenas tem um nome e um rosto, o restante faz tudo parte de um enorme mistério. Aparentemente Josef era o líder do culto do movimento Graal. O grupo intitulava-se de “The hands”, em português “As mãos”.

O movimento Graal é um culto que se iniciou na Alemanha por volta de 1940, o grupo tem estimadamente 10.000 membros, a maioria a residir na Europa Ocidental. Acredita-se que o número mais pequeno de membros do culto esteja espalhado pelos Estados Unidos, Canadá, Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Tailândia e em alguns pontos do continente africano. Os estudos que exploraram este movimento acreditam que o culto é uma espécie de religião, um pseudo-cristianismo, um grupo religioso individual, que corrompe os conceitos da Bíblia, distorcendo a sua mensagem. Enquanto os cristãos entendem o sentido espiritual de consumir o sangue e o corpo de Cristo, o culto do movimento Graal olha para as palavras no sentido literal. Sem uma autoridade religiosa, estas crenças podem efetivamente originar algo mais sinistro. Existem relatos de alguns membros mais fanáticos que praticaram rituais mais atrozes, contudo não se sabe ao certo quantos rituais foram exatamente praticados.

Os pais de Adam eram parte deste culto e isso justifica o porquê de ser permitido a Barbora fazer-se passar pelo menino. Eles disponibilizaram o passaporte do seu filho para que Barbora viajasse livremente após fugir da casa de abrigo, uma vez que era já considerada fugitiva. Portanto, objetivo de Josef e das suas mães, era de apresentar Bárbara como sendo um ídolo, um símbolo a admirar. Até quando Barbora foi introduzida a Klara, o objetivo era precisamente esse, uma vez que assim poderiam arrecadar mais seguidores no seu movimento deste culto. Todavia, nas suas declarações, Barbora diz que o motivo pelo qual se fez passar por outras crianças era para ter uma forma de fugir à realidade. Ao serem questionados, cada um dos membros do culto apresentava ter respostas e motivos distintos, contudo, não existe nenhuma evidência concreta de que o culto “The hands” realmente exista, inclusive um jornal foi processado por alegar numa notícia que a tortura de crianças e o gesto de as obrigar a comer partes da própria carne era típico do culto. A notícia foi removida.

O caso obviamente foi à tribunal. Klara foi condenada a 9 anos de prisão, Katerina a 10 anos e Barbora a 5 anos. Jan Turek foi também condenado 5 anos. Hans Basova e Jans Skrla foram condenados com 7 anos cada. Portanto, todos os adultos atualmente já se encontram em liberdade. Após ser solta, Barbora teve acompanhamento profissional psiquiátrico e foi diagnosticada com vários distúrbios. Barbora encontra-se a residir com as irmãs. Quanto aos filhos biológicos de Mauerova, desconhece-se o seu estado atual, talvez pelo melhor.

Barbora Skrlova.

Esta desumana e verídica história inspirou o filme “The Orphan”. O thriller lançado em 2009 relata um caso fictício que de certa forma colide com uma infeliz realidade. Ainda sobre o caso e para um conhecimento mais apurado, Ryan Green oferece-nos o livro “The Kurim Case”.


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